Rio de Janeiro, 30 de Agosto de 2025

Rio ganha muros que narram história e luta negra

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Sexta, 01 de Agosto de 2025 às 11:59, por: CdB

Projeto idealizado por Pedro Rajão e Fernando Cazé já pintou mais de 70 murais espalhados pela cidade, de escolas a grandes prédios e patrimônios.

Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro

O mural mais recente do projeto NegroMuro, inaugurado em junho na Barreira do Vasco, São Cristóvão, Zona Norte do Rio, levou para a fachada de um colégio público carioca a história de um nome ainda pouco lembrado no Brasil, mas que se consagrou como símbolo de luta racial, lenda do atletismo e campeão dentro e fora das competições — inclusive, com um Oscar para chamar de seu: Adhemar Ferreira da Silva. Ele foi o primeiro bicampeão olímpico do país, criador da volta olímpica e primeiro atleta brasileiro a entrar para o Hall Internacional da Federação de Atletismo.

Rio ganha muros que narram história e luta negra | Grafite do NegroMuro na Escola João de Camargo, na Barreira do Vasco
Grafite do NegroMuro na Escola João de Camargo, na Barreira do Vasco

A pintura, idealizada pelo artista Fernando Cazé e pelo pesquisador Pedro Rajão, ocupa a frente da Escola João de Camargo, na Barreira do Vasco. A iniciativa faz parte do compromisso do NegroMuro de espalhar pelas ruas personagens negros que nem sempre recebem o devido lugar na memória oficial do país.

– Já tínhamos o acervo, as fotos, conversas com a família. A Maratona do Rio nos procurou pra pintar um ícone do atletismo. Sugeriram outro, mas insisti no Adhemar: era daqui, morou em São Cristóvão, foi atleta do Vasco. Fui batendo de porta em porta até encontrar a Escola João de Camargo. A escola foi construída pelo Vasco. A diretora queria muito repintar a fachada e não tinha verba. Casou tudo: bairro, história, financiamento.

Para além das pinturas, o NegroMuro virou aula ao ar livre. Desde 2018, o projeto soma mais de 70 murais espalhados por lugares onde muitas vezes os heróis locais não costumam ganhar os holofotes. Da primeira pintura do músico nigeriano Fela Kuti ao Circuito da Igualdade Racial, — um projeto dentro do NegroMuro que sinaliza imóveis de grande relevância para história negra do Rio, como a casa onde morou casa de Lélia Gonzalez, em Santa Tereza — a iniciativa cruzou a tinta com a pesquisa para reconstruir capítulos deixados de lado na história.

Os murais também retratam nomes de peso, passando por Elza Soares, Paulinho da Viola, Conceição Evaristo, Wilson das Neves e Leci Brandão. Também ganham espaço figuras históricas, como o herói renegado da Marinha, João Cândido, o Almirante Negro.

O salto que mudou o esporte no Brasil

A escolha de Adhemar não foi à toa. Além de bicampeão olímpico, foi escultor, músico, ator do filme Orfeu Negro — que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1960 —, poliglota, formado em Educação Física e adido cultural durante o governo João Goulart.

Ele foi ainda atleta do São Paulo, clube que carrega até hoje duas estrelas douradas em sua homenagem, e também do Vasco da Gama, clube com histórico de luta contra o racismo no país — foi no reduto do time onde Adhemar foi eternizado pelo projeto de Rajão e Cazé. Em sua trajetória, o atleta representou o Brasil nos Jogos de Helsinque, em 1952, e Melbourne, em 1956 — conquistando duas vezes o ouro no salto triplo. Tudo isso numa época marcada pelo racismo estrutural

– Ele representou o Brasil melhor que muito diplomata de carreira – diz Rajão. Foi Adhemar quem, em Helsinque, improvisou a volta olímpica depois de quebrar o próprio recorde três vezes na mesma Olimpíada. “Em qualquer outro país ele teria uns três filmes”, resume o pesquisador.

Apesar do currículo, Adhemar terminou a vida longe dos holofotes. Para Pedro, murais como esse são reparação de memória. “É muita coisa. Quanto mais você pesquisa, mais se impressiona com a grandeza e a humildade dele — mas não aquela humildade submissa: era consciente de quem era”, afirma.

Como tudo começou

O ponto de partida foi o documentário Anikulapo, no qual Pedro Rajão trabalha desde 2010, com foco no Fela Kuti — ícone político e cultural nigeriano, fundador do Afrobeat e voz de denúncia contra o neocolonialismo nos anos 1970. Pedro e Cazé se conheceram nesse processo e, juntos, decidiram levar o Fela para um muro entre Andaraí e Grajaú, em frente a uma escola estadual. A professora de Arte quis saber quem era o homem pintado, levou a história para dentro da sala de aula, os alunos fizeram trabalho sobre o tema.

– A gente viu o impacto do nosso trabalho num colégio público e isso refletiu muito sobre o papel do que a gente estava fazendo ali, a importância de ter referências pretas num mural público, sem estar num lugar de falar mais uma vez do negro apenas enquanto escravizado – afirma Rajão.

Hoje, são mais de 18 murais em colégios, participação em livros didáticos, palestras e homenagens. “Fomos tema de creche este ano, chorei muito. Crianças de três, quatro anos interpretando um mural nosso. Isso vale mais que qualquer hype de Instagram”, diz Pedro.

Figuras históricas, figuras do agora

O NegroMuro cruza o passado com o presente, eternizando nos muros cariocas desde Pixinguinha a Léo Santana, Lil Nas X a Luiz Melodia. “Quando a molecada vê alguém que conhece, se anima. Quando descobre Pixinguinha, pesquisa, leva pra casa. É golaço. Das duas formas tem figuras pretas sendo exaltadas de maneira positiva”, afirma Pedro.

Cada muro vem de pesquisa pesada: madrugadas na Hemeroteca, Biblioteca Nacional, entrevistas, acervos. “As conversas são ouro. Já liguei pro Ney Lopes, entrevistei Conceição Evaristo na casa dela, Alcione… É trabalhoso pra caramba, mas é a cachaça da parada. É poder colher essas histórias e botar elas as mais públicas possível”.

O NegroMuro também rompeu barreiras simbólicas. Já pintou a fachada do Teatro Municipal, um mural de 21 metros do Machado de Assis na Academia Brasileira de Letras (ABL) — espaço onde, segundo Pedro, nunca havia entrado antes de pedir apoio. Para ele, o projeto leva figuras de resistência para espaços onde muitas vezes não são ocupados por pessoas periféricas, restritos a uma elite social. “A gente fala de democratização da arte, dos espaços da cidade. O foco é que nosso trabalho sirva para, de alguma forma, convidar as pessoas a conhecerem esses espaços”.

Não por acaso, o impacto, muitas vezes, é imediato: “A gente pintou o Machado de Assis na ABL. E na nossa vivência com os seguranças, com o pessoal da faxina, com os bombeiros, com quem trabalha na recepção, eles não sabiam que o Machado de Assis era negro. Os caras trabalham na casa do Machado de Assis e ficaram sabendo por causa do nosso trabalho, vendo em cores, que o Machado não é branco”. Para ele, isso é resultado do apagamento e do embranquecimento de figuras negras históricas ao longo do tempo. 

E é nessa disputa de memória que Pedro Rajão mantém os pés no chão — e a meta de nunca parar. “A gente não vai ver a superação do racismo em vida. Nem do machismo. Não é pessimismo, é matemática. Tenho 40 anos — quanto tempo me resta? E quanto tempo esses processos históricos levam? Então não vamos ver o fim do genocídio na África, nem em Gaza. Infelizmente, vamos conviver com isso a vida inteira. E aí temos duas saídas: ou a gente luta e reafirma o que vem sendo reafirmado desde Abdias, desde Malcolm X, ou a gente finge que nada está acontecendo e entrega os pontos”.

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