Rio de Janeiro, 30 de Agosto de 2025

Seca muda paisagem de um dos maiores lagos gerados por represas de hidrelétricas

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Segunda, 05 de Julho de 2021 às 12:43, por: CdB

Não fosse suficiente o flagelo da falta d’água, a questão econômica das cidades ocorre porque o lago vai do sul ao oeste de Minas Gerais, com localidades que ficam a mais de 100 quilômetros de distância da barragem. Isso faz com que ele atinja áreas planas e também montanhosas.

Por Redação - de Belo Horizonte

A pior crise hídrica que assola o centro do país em mais de 90 anos tem mudado a paisagem mineira. No lago da hidrelétrica de Furnas, conhecido ‘Mar de Minas’, onde havia peixes, pescadores, motos aquáticas, lanchas e água em abundância, no ano passado, hoje o capim brotado alimenta cavalos e vacas. A seca fez a água recuar até oito quilômetros em algumas cidades banhadas pelo lago, o que deixou píeres de pousadas e hotéis sem utilidade, num cenário de tristeza.

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A seca atinge o lado da represa de Furnas, em Minas Gerais, com força

O volume útil de Furnas, que instituições diversas e o setor turístico apontam que deveria ficar acima de 55% para não prejudicar as atividades econômicas, estava em 29,77% na última terça-feira, segundo levantamento publicado nesta segunda-feira pelo diário conservador paulistano Folha de S. Paulo (FSP).

O nível atual da água é de 757,4 m acima do nível do mar, 4,6 m abaixo do mínimo desejado, de acordo com a Associação dos Municípios do Lago de Furnas (Alago) e o comitê da bacia hidrográfica local.

— A cada dia está pior a situação e, com a crise energética, tende a piorar ainda mais. São quase cinco metros abaixo do nível mínimo, o que é muito. A cota de 762 m é o aceitável para atender a maioria das atividades econômicas, além da produção de energia — afirmou à FSP Fausto Costa, secretário-executivo da Alago e vice-presidente do comitê da bacia.

Prejuízos

A irrigação, tanto de grandes fazendas quanto de agricultores familiares, acrescentou Costa, é um dos setores prejudicados, além de piscicultura, clubes náuticos, hotelaria e o setor de bares e restaurantes. Estimativas de associações ligadas ao turismo e ao comércio apontam que o total de empresas atingidas com a seca de Furnas chega a 5 mil, com 20 mil empregos a menos no setor, que já sofre prejuízo desde 2020 com a pandemia da Covid-19.

Não fosse suficiente o flagelo da falta d’água, a questão econômica das cidades ocorre porque o lago vai do sul ao oeste de Minas Gerais, com localidades que ficam a mais de 100 quilômetros de distância da barragem. Isso faz com que ele atinja áreas planas e também montanhosas. Nas áreas planas, em cidades como Varginha, Fama, Alfenas, Areado, Carmo do Rio Claro, Cristais, Formiga e Campo do Meio, os prejuízos são ainda mais significativos.

Enquanto isso, a região mais próxima à barragem, que contempla locais como Capitólio —que se tornou nos últimos anos a principal cidade turística da região—, São José da Barra e São João Batista do Glória, entre outras cidades, não sofre tanto.

— Nelas, a água também baixa, mas não distancia, porque é uma área montanhosa. O lago vai baixando, mas não vai ficando tão longe de um empreendimento. Nos outros, como são planos, a profundidade não é tão grande — acrescentou Costa.

Energia

 Em Fama, barcos estão parados nos barrancos e um trampolim com cerca de 5 m de altura, outrora utilizado para recreação, hoje só serve para mostrar o tanto que a água se afastou. O problema já existia em anos anteriores, mas se agravou neste ano, contam moradores.

— A gente tinha de disputar lugar no trampolim para mergulhar. Hoje é só tristeza — lamentou o pedreiro José Francisco dos Santos.

Para a associação dos municípios, o lago de Furnas poderia ser aliviado com a retenção de água, gerando mais energia em outras hidrelétricas do sistema, que é interligado.

— É só lembrarmos que 2016 foi um ano bom. Se houvesse planejamento para manter o lago cheio, hoje tinha como atender o uso múltiplo e, ao mesmo tempo, dar segurança energética — resumiu Costa. Apesar do cenário crítico, o nível do reservatório já esteve em situações piores, como em 1999, quando ficou com apenas 6,28%. Em fevereiro de 2015, alcançou 10,6% do total.

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