O grupo utilizava dados de pessoas em situação de rua como laranjas para abrir firmas que serviam de base para empréstimos fraudulentos.
Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro
Uma investigação da Polícia Federal (PF) revelou que uma rede criminosa que atuava há mais de duas décadas no Rio de Janeiro movimentou mais de R$ 2 bilhões por meio de 334 empresas de fachada.

O grupo, desarticulado na última quinta-feira, utilizava dados de pessoas em situação de rua como laranjas para abrir firmas que serviam de base para empréstimos fraudulentos. O esquema era liderado pelo empresário Jobson Batista, que teve a identidade divulgada na noite do domingo pelo programa Fantástico, da TV Globo.
Jobson Batista era ex-oficial da Marinha Mercante, de acordo com a PF. Ele contratava empréstimos em nome dessas empresas, pagava as primeiras parcelas, depois suspendia os repasses e declarava dificuldades financeiras.
– Uma vez obtido o empréstimo em nome da empresa de fachada, eles começavam a pagar as primeiras parcelas, para que não notassem que se tratava de fraude. Após o pagamento de algumas parcelas, cerca de 10,12, eles paravam de pagar. E, então, parecia que a empresa tinha ficado inadimplente e que tinha tido dificuldade financeira, quando, na verdade, era fraude desde o início – explicou o delegado Bruno Bastos Oliveira, em entrevista ao Fantástico.
Pessoas em situação de rua como laranjas
Em um desses episódios, um homem em situação de rua aceitou ceder seus dados pessoais ao empresário em troca de cachaça. O mesmo, segundo a PF, era feito com outras pessoas de baixa renda.
A engrenagem contava com o auxílio de contadores, que adaptavam CNPJs de companhias reais para transformá-los em firmas inexistentes, e com a participação de gerentes de bancos públicos e privados, que recebiam vantagens como bebidas, celulares e percentuais dos valores liberados.O programa destacou que o empresário chegou a ser apelidado de Rei dos Empréstimos por investigadores.
Segundo o delegado, as empresas não tinham funcionários, produtos ou atividade econômica, mas eram mantidas regulares na contabilidade para obter crédito.
– As empresas não tinham qualquer produção. Elas não vendiam qualquer produto. Simplesmente, existiam de forma contábil. Então, elas estavam todas regulares, só que não tinha um funcionário, não tinha nenhum produto, não tinha nenhum estabelecimento – esclareceu Oliveira.
A PF aponta que o início das fraudes remonta ao começo dos anos 2000, em Itaipuaçu, quando Jobson enfrentava dificuldades financeiras em uma loja de material de construção. A partir dali, o modelo foi replicado até se transformar em uma estrutura permanente de fraudes.
Operação Oasis 14
A ação da última semana mobilizou 140 agentes para cumprir 26 mandados de prisão e 28 de busca e apreensão em oito cidades do Rio e em São Paulo. Ao todo, 16 prisões foram confirmadas. Em São Pedro da Aldeia, além do cumprimento da ordem judicial, um alvo foi preso em flagrante por posse ilegal de arma após os agentes encontrarem um revólver carregado.
Jobson e sua mulher, Cláudia Márcia, foram detidos em um condomínio de luxo em Piratininga, na região Oceânica de Niterói. Segundo os investigadores, o imóvel servia para lavagem de dinheiro. O empresário já havia sido preso em 2024, depois que um dos laranjas foi flagrado tentando sacar valores com documentos falsos. À época, ele foi acusado de corrupção ativa após tentar subornar o delegado responsável, mas deixou a prisão meses depois, monitorado por tornozeleira eletrônica.
O balanço parcial da operação aponta que seis funcionários da Caixa Econômica Federal e quatro de instituições privadas estão entre os investigados. O prejuízo documentado apenas contra a Caixa chega a R$ 33 milhões, mas a estimativa é de um impacto de R$ 110 milhões ao sistema financeiro nacional.
Os envolvidos vão responder por estelionato qualificado, organização criminosa, corrupção ativa e passiva, crimes contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro.
A defesa de Jobson e Cláudia, representada pelo advogado Jair Pionetto, afirmou em nota que a inocência do casal será comprovada no decorrer do processo. Já a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) informou que repudia o envolvimento de bancários em condutas criminosas e destacou que promove treinamentos periódicos para prevenir fraudes.