Rio de Janeiro, 29 de Agosto de 2025

A memória da ditadura hoje

Arquivado em:
Segunda, 25 de Agosto de 2025 às 11:36, por: CdB

Em um romance, a mistura de mortos e vivos nem sempre está na intenção consciente do escritor.

Por Urariano Mota – de São Paulo

A escritora Han Kang, Nobel de Literatura, fala em entrevista ao diário conservador paulistano Folha de S.Paulo:

“Confundo intencionalmente quem está morto e quem está vivo. Não importa. O mais importante é que estão todas conectadas.

Quero sentir que aquelas pessoas existem. Quero emprestar minha vida, minha carne, minhas sensações a elas. É um processo muito pessoal.

A memória da ditadura hoje | Para um escritor, a ditadura não é história morta
Para um escritor, a ditadura não é história morta

Às vezes você não consegue distinguir o que é político do que é pessoal.”

Comento, de modo breve, as declarações da escritora a seguir.

Em um romance, a mistura de mortos e vivos nem sempre está na intenção consciente do escritor. Diante da sua memória, o escritor não se pergunta: “essa pessoa já morreu?”. Pelo contrário, o modelo da pessoa está vivo e lhe fala, numa voz maior que a dos médios espíritas quando incorporam um morto. Quero dizer, a pessoa volta inteira, no que foi e continua a ser em suas circunstâncias. O “falecido” está assim, entre aspas. Ele não está na página como uma lembrança simplesmente. Ele é, ele está, ele é nosso parceiro, amigo ou inimigo. Ele pula, grita, chora e sorri, ali, aqui, ou não será digno da sua inesquecível presença.

E de fato, o escritor não quer sentir a pessoa, modelo da personagem. Ele a sente. Lembro que ao falar de Soledad Barrett, numa instrução que eu dava sobre uma peça de teatro para ela, eu afirmei no restaurante: “Eu vejo Soledad entrar por aquela porta”. Verdade. Tão natural, não me assombrava que Soledad estivesse morta pela repressão bárbara da ditadura. Mas eu a via a entrar no restaurante. Como dizê-lo? Era uma comunhão inescapável.

No romance A mais longa duração da juventude, ao escrever sobre o personagem Vargas, cujo modelo é Jarbas Marques, assassinado pela ditadura em 1973, ele me fala, eu o sinto e compreendo vivo, perto da hora extrema da morte:

“Um ônibus para, pessoas sobem. Ele entra também, sem saber para onde vai. Que importa? Será executado amanhã. E pela janela vê a Conde da Boa Vista, a ponte Duarte Coelho, a avenida Guararapes, o rio Capibaribe, como pela primeira vez. Que amargo encanto. ‘Como é bonita a minha cidade. Só agora percebo. Me perdoa, Recife, por ter sido tão brutal. Tu és para mim a mundo, o lugar da fraternidade que ainda não temos. Mas um dia vamos ter, e tu serás a companheira e camarada da revolução’. E põe as mãos juntas como se rezasse, logo ele, um ateu sectário, põe as mãos juntas por um reflexo antigo, da infância: ‘Eu te amo a ti, somente a ti, acima de todas as coisas. Eu te amo como o meu último afeto. Estás acima do que mais amo, a minha pátria e túmulo da revolução’. E começa a rezar, pelo Recife, ele se diz. Mas reza por ele mesmo, enquanto o ônibus sai da Avenida Guararapes. Vargas não quer ter consciência, não quer censura, no instante em que reza: ‘Meu Deus, me liberta de vez ou me dá mais um tempo. Mas se eu não for digno, dá-me um tiro. Meu Deus, dá-me um tiro na cabeça. Sem a humilhação da tortura ou dor infame. Dá-me a paz de um tiro certeiro’. E fala em voz alta: Deus, tu me ouves?

Passageiro ao lado

O passageiro ao lado o examina com desconfiança. Isso não incomoda Vargas. ‘Que me importa? Olhe. Se Deus não me escuta, que me importa que me tomem por louco? Eu sou um homem. Eu sou apenas um patriota sozinho’. O corpo treme, arde de febre. Então fecha a janela. Vem de repente um fogo, uma fornalha, boca de vulcão que ele não sabe como. É uma expulsão de lava, chamas de fogo explodem. A boca do vulcão é um grande olho vermelho, um sexo. ‘É assim que me falas, Deus? Eu não tenho medo do fogo. A minha prova será maior’. Então a lembrança da prova do outro dia lhe faz desviar a vista da boca que vomita lava na avenida. Olha para dentro do ônibus e o que descortina é um longo corredor.

Por que longo, se será tão curto? A distância é uma dimensão alterada pela dor. Minutos de afogamento, choque elétrico e espancamento a ferro são longa agonia. Numa antevisão, Vargas pula para o resultado, a destruição física do corpo, abstraindo a tortura. Mesma na dura realidade, o cérebro pula o mais doloroso. Como uma extração de dentes com anestesia. O resultado é sangue, objeto arrancado em um raio, zás! ‘Se me torturarem, se eu sofrer muito, eu resolvo’. Se, se, luta entre o fatal e o possível. Evita a pior hipótese. Ele não sabia, ele não esperava chegar a esse ponto. ‘Eu não estou organizado, por que me caçam?’. Mas o ônibus segue, transformado em veículo que o conduz à parada final. O ônibus não é a máquina que despeja e recebe passageiro, é metáfora do nome que ele não quer dizer. ‘Serei o próximo a … cair? Sim, é certo, eu vou cair. E se eu não morrer?’. Mas Fleury está no Recife, ele não viria de São Paulo para nada. Veio por algo mais grave, e sente um arrepio. ‘É a febre’. E se vê de passagem na frente do assassino. O matador procura extrair tudo, com o máximo de dor, até a fronteira que desembarca no nada. ‘Nada?! Eu sou Vargas. Nada? O que é o nada?’. E se põe no labirinto de ideias que é cerco. ‘Nada, que é que é nada?’. Não pode ser o seu cadáver machucado. Como ficaria o seu corpo? ‘Absurdo. Eu sou Vargas’ ”.

Para um escritor, a ditadura não é história morta. Ela está além das tentativas dos fascistas, da gangue de Bolsonaro e companhia destes dias. Ela está viva a exigir a mais severa punição. Até hoje, até agora.

 

Urariano Mota, é Jornalista do Recife. Autor dos romances Soledad no Recife, O filho renegado de Deus e A mais longa duração da juventude.

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