Parcela massiva do povo brasileiro encontra-se amestrada sob o jugo da ultradireita e do discurso de ódio promovido pelo clã Bolsonaro. O resultado são imagens deprimentes de um colonialismo arraigado às bases de um eleitorado que, há décadas, perdeu o contato com a realidade.
Por Redação – de Brasília
Efeitos do colonialismo promovidos ao longo da História brasileira levam a imagens distópicas, dignas do realismo fantástico que marcaram obras literárias latino-americanas no século passado. Nelas, nem o abuso cometido por um governante estrangeiro, que impõe severas sanções ao país, é capaz de modificar a subserviência atávica aos colonizadores.

Em uma extensa reportagem do diário britânico The Guardian publicada neste sábado, com a assinatura do correspondente Tom Phillips e fotografias do premiado fotojornalista Ueslei Marcelino, sob o título ‘Apoiadores de Bolsonaro rezam pelo resgate de Trump enquanto o veredito do julgamento sobre o golpe se aproxima’, a rotina de uma bolsonarista revela a extensão do estrago causado pela lavagem cerebral promovida por mecanismos de comunicação de massa ligados à ultradireita.
Devota
“Todas as manhãs, Edite Costa sai de seu bangalô na savana ensolarada de Brasília, fica sob uma mangueira e ergue as mãos para o céu em oração.
— Peço a Deus que trabalhe para que não apenas Trump, mas todos os (norte-)americanos venham nos ajudar a erradicar o mal que tomou conta do país que eu amo — afirma a devota batista de 66 anos, uma fervorosa apoiadora do ex-presidente de extrema direita Jair Bolsonaro (PL)”.
Assim, Tom Phillips abre a matéria que desvenda o imaginário absurdo que povoa a rotina de milhares de seguidores do líder neofascista.
Trump
“Bolsonaro pode enfrentar décadas de prisão por supostamente liderar uma conspiração assassina para tomar o poder depois que seu rival de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, o derrotou nas eleições presidenciais de 2022. Mas Costa acredita que seu líder populista ainda pode ser salvo – se suas preces forem atendidas e Donald Trump intervir.
— Eu acredito em Deus e acredito que Deus tocará o coração de Donald Trump e que ele nos ajudará — proclamou Costa, parada em seu jardim, segurando a bandeira norte-americana que agita em comícios pró-Bolsonaro.
— Estou convencida de que Deus o escolheu como libertador. E acredito que Deus o capacitará – e a todos os americanos – para que venham amar e libertar minha terra — diz ela sobre o presidente dos EUA”, continuou o correspondente.
Golpe
Costa, segundo o jornalista, “está longe de ser a única bolsonarista a depositar suas esperanças na intercessão de Trump à medida que o julgamento de Bolsonaro se aproxima. Nas próximas semanas, a expectativa é de que o Supremo Tribunal Federal (STF) considere Bolsonaro culpado de planejar um golpe, o que o deixaria com 70 anos de idade, com pena prevista de até 43 anos de prisão”.
“Amigos e opositores do ex-presidente, que governou de 2019 até o final de 2022, estão convencidos de que o resultado é previsível.
—Temos quase certeza de que a sentença já foi escrita (e) Bolsonaro será preso — disse Patrícia de Carvalho, 50 anos, empresária pró-Bolsonaro da capital brasileira que insiste na inocência de seu líder”, acrescentou Phillips.
Relatório
“Guilherme Boulos (PSOL-RJ), deputado de esquerda e aliado próximo de Lula, também acredita que a condenação e a prisão de Bolsonaro estão garantidas”, continuou.
— Li o relatório de 300 páginas do procurador-geral… as provas são extremamente robustas — disse Boulos a Tom Phillips, apontando para uma série de materiais incriminatórios descobertos por investigadores da Polícia Federal.
“As evidências incluem a descoberta de que um suposto plano para assassinar Lula e Alexandre de Moraes, o juiz do STF que presidia o julgamento, foi impresso no palácio presidencial de Bolsonaro.
— Qualquer julgamento justo que considere essas evidências levará à condenação de Bolsonaro por tentativa de golpe — previu Boulos.
Retaliação
“Costa, Carvalho e milhões de outros devotos agora veem apenas uma possível salvação para o líder de seu movimento: Trump pressionando o Supremo Tribunal Federal e o governo Lula na tentativa de forçar os juízes a absolvê-lo.
“Nas últimas semanas, o presidente dos EUA começou a atender aos seus apelos, primeiro impondo tarifas de 50% sobre as importações brasileiras em retaliação a uma suposta ‘caça às bruxas’ anti-Bolsonaro, depois retirando os vistos (norte-)americanos de oito juízes da Suprema Corte e, finalmente, aplicando sanções a Moraes e acusando-o de transformar a maior democracia da América do Sul em ‘uma ditadura judicial”, descreve.
Conhecido como filho ’03’, o deputado Eduardo Bolsonaro está no centro da campanha de pressão de Trump, “com laços estreitos com o movimento Maga. Eduardo, de 41 anos, mudou-se para os EUA em fevereiro alegando ser vítima de perseguição política e tem se dedicado a persuadir autoridades de Trump a atacar o Brasil”, retrata o jornalista.
— (Visito a Casa Branca] quase toda semana — disse ele ao diário conservador carioca ‘O Globo’ esta semana, admitindo que estava pressionando o governo Trump para impor mais sanções depois que seu pai foi colocado em prisão domiciliar na segunda-feira.
Sanções
O parlamentar disse esperar uma reação dos EUA.
— O que eles farão, eu não sei — acrescentou o político de extrema direita, que nomeou alguns de seus contatos nos EUA como os congressistas republicanos María Elvira Salazar, Richard McCormick e Chris Smith, e o ex-estrategista de Trump, Steve Bannon.
“Com o dia do julgamento de Bolsonaro previsto para setembro, seus seguidores estão instando o governo Trump a impor sanções aos outros integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), composto por 11 membros, para garantir a absolvição”, relata.
No último domingo, a empresária bolsonarista se juntou a milhares de manifestantes em frente ao Banco Central de Brasília, carregando uma faixa que instava Trump a tornar o Brasil grande novamente. Muitos manifestantes carregavam bandeiras dos EUA ou usavam bonés vermelhos da Maga estampados com o nome de Trump. Carvalho expressou confiança de que o tribunal cederia à pressão dos EUA e arquivaria o caso.
“Especialistas discordam. Eles acreditam que as sanções e tarifas de Trump não têm a mínima chance de influenciar os cinco juízes que decidirão o destino de Bolsonaro” esclarece Tom Phillips.
Fracasso
“O que Trump poderia fazer para salvar a pele de Bolsonaro?”, questiona o correspondente.
— Invadir o Brasil — gracejou Thomas Traumann, comentarista político e autor de um livro sobre seu país politicamente dividido, intitulado ‘Biografia do Abismo’.
— Não há a mínima chance de isso acontecer.”
Segundo Traumann, a campanha de pressão de Trump foi a “última cartada” de Bolsonaro, mas fracassou, servindo apenas para virar muitas das elites conservadoras brasileiras contra o ex-presidente por colocar seus próprios interesses pessoais acima dos do país. Esta semana, uma federação industrial alertou que as tarifas de Trump podem custar à economia brasileira £ 3,5 bilhões (R$ 22,4 bilhões) nos próximos dois anos.
Afronta
Traumann acreditava que as chances de outro membro do clã Bolsonaro vencer a eleição presidencial do ano que vem e oferecer ao seu patriarca um passe livre para sair da prisão também haviam diminuído.
Boulos, por sua vez, também considerou que a manobra de Trump – que ele chamou de “uma afronta vergonhosa, arrogante e imperialista” – saiu pela culatra para o bolsonarismo .
— Até gente da direita está olhando para isso e dizendo que isso não é possível… O Brasil não é o quintal dos EUA, não é uma pequena república das bananas onde ele pode intervir e fazer o que quiser — afirmou o parlamentar.
Mansão
“Bolsonaro e seus filhos políticos há muito se retratam como patriotas agitadores de bandeiras, incentivando seus seguidores a vestir a camisa amarela e verde da seleção brasileira e adotar o hino nacional como sua música:
— Mas eles se revelaram traidores da nação que estão sendo usados por Trump para atacar a soberania brasileira, os empregos brasileiros e a economia brasileira. Se o objetivo era salvar Bolsonaro, eles deram um tiro no próprio pé.”
“Mesmo assim, os bolsonaristas prometeram continuar lutando. Esta semana, depois que Bolsonaro foi confinado em sua mansão, frotas de carros e motos buzinaram pelas ruas da capital em protesto contra o tratamento que recebeu. Parlamentares pró-Bolsonaro realizaram uma ocupação de 30 horas na Câmara dos Deputados para exigir anistia para o ex-presidente e para os ativistas de direita que saquearam o mesmo prédio durante sua invasão em Brasília em 8 de janeiro de 2023.
Bases militares
“Em um protesto de rua, Costa, que admitiu ter subido no telhado do Congresso durante os protestos pró-Bolsonaro, hasteou sua bandeira americana em um céu azul e implorou ao presidente dos EUA que agisse. ‘Trumpy! Trumpy! Trumpy! Trumpy!’, gritava alegremente a multidão ao seu redor, usando a pronúncia brasileira do seu nome.
— Trumpy! Venha para o Brasil, Trumpy! — Costa berrou em inglês, implorando para que ele cercasse o Brasil com bases militares (norte-_americanas e colonizasse sua terra natal.
— Nós te amamos!