Decisão de Washington amplia tensão militar e econômica na relação com o governo Lula e gera preocupação no Ministério da Defesa.
Por Redação, com Agenda do Poder – de Brasília
Os Estados Unidos cancelaram a Conferência Espacial das Américas, que seria realizada em parceria com a Força Aérea Brasileira (FAB), e sinalizaram que também devem se ausentar da principal manobra da Marinha do Brasil, a Operação Formosa. O movimento amplia a tensão na cooperação militar entre os dois países e reflete a crise política e econômica que marca a relação entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. A informação foi publicada pelo diário conservador paulistano Folha de S.Paulo.

O Southcom (Comando Sul dos EUA) planejava organizar o encontro em Brasília, entre 29 e 31 de julho. A FAB confirmou o cancelamento. “O evento foi cancelado por decisão dos Estados Unidos no dia 23 de julho”, disse a Força Aérea em nota. Procurado, o Comando Sul não respondeu.
A conferência, em sua quarta edição, tem como objetivo promover a cooperação internacional no setor espacial, incluindo usos militares, econômicos, de telecomunicações e de pesquisa. No ano passado, ocorreu em Miami, com a participação de dez países, entre eles Brasil, Canadá, Chile, México e Argentina.
O cancelamento é interpretado como mais um sinal de afastamento após o agravamento da crise diplomática. Trump acusou o governo Lula e o Supremo Tribunal Federal (STF) de conduzirem uma “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro, réu por envolvimento em tentativa de golpe. Washington ainda impôs sanções financeiras contra o ministro Alexandre de Moraes, cassou vistos de magistrados e de integrantes do programa Mais Médicos. Na frente econômica, os EUA aplicaram sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros, bloqueando canais de diálogo oficiais.
Operação Formosa
O afastamento também deve atingir a Operação Formosa, maior exercício da Marinha em território nacional, que mobiliza cerca de 2.000 militares, mais de 100 viaturas e oito helicópteros. Desde 2023, os fuzileiros navais dos EUA passaram a integrar o treinamento. Em 2024, 56 militares dos EUA estiveram no Brasil, no mesmo exercício que reuniu tropas da China.
Este ano, segundo apuração da Folha de S. Paulo, os convites da Marinha não tiveram resposta dos estadunidenses, enquanto Pequim já comunicou que não enviará tropas. Há ainda resistência dentro do governo brasileiro quanto à presença de militares dos EUA, diante das sanções impostas ao país.
Apesar do impasse, oficiais-generais ressaltam que não há ruptura na cooperação. Eles lembram que os EUA enviaram cargueiros para o Exercício Conjunto Tápio, em julho, e que está prevista para novembro a realização da Operação Core 2025, voltada à padronização de procedimentos entre as forças em missões conjuntas.
O mal-estar é crescente desde a visita ao Brasil do chefe do Comando Sul, almirante Alvin Holsey. A viagem, marcada por agendas canceladas, gerou estranhamento após o pedido dos EUA de conhecer uma base militar em Rio Branco (AC), ponto fora do roteiro usual de autoridades estrangeiras. A negativa brasileira em atender à solicitação restringiu os compromissos do oficial apenas a Brasília.