Com uma longa experiência diplomática, Amorim faz uma análise histórica das transformações da ordem internacional e acredita que o bloco é hoje a principal plataforma para a construção de um sistema global mais justo e representativo.
Por Redação – de São Paulo
Chanceler brasileiro nos dois governos anteriores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o diplomata Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, avalia que o grupo político-econômico formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS) tornou-se o novo nome do multilateralismo no século XXI.

Com uma longa experiência diplomática, Amorim faz uma análise histórica das transformações da ordem internacional e acredita que o bloco é hoje a principal plataforma para a construção de um sistema global mais justo e representativo.
— Hoje, sua missão é canalizar esse impulso para construir um mundo que seja justo e sustentável, onde o multilateralismo prevaleça. Não precisamos de nada menos que isso — escreveu Amorim ao encerrar o artigo publicado, nesta quinta-feira, no diário conservador paulistano Folha de S. Paulo.
Disputas
O BRICS, segundo Amorim, contém o caráter reformista necessário diante de uma ordem global cada vez mais instável e assimétrica. O ex-chanceler relembra que ingressou na carreira diplomática durante a Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, e acompanhou guerras como a do Vietnã e a dos Seis Dias.
Apesar da tensão, havia, segundo ele, a confiança de que a racionalidade entre potências prevaleceria. Hoje, porém, o cenário é mais sombrio: “As guerras modernas já não são movidas apenas por ideologia ou rivalidade econômica. Elas são inflamadas por fervor religioso e disputas territoriais, ecoando as tensões que precederam a Primeira Guerra Mundial”.
A desagregação da ordem multilateral, na análise do diplomata, ficou evidente com a criação do G7, em 1975. “Embora a Carta da ONU tenha estabelecido o Conselho Econômico e Social para tratar de questões econômicas globais, as maiores economias do mundo nunca lhe deram a devida atenção”, afirma. O G7 e, depois, o G8 funcionaram como clubes exclusivos que tomavam decisões de forma oligárquica, mesmo quando incluíam países em desenvolvimento de maneira periférica.
Alternativa
Com a crise financeira de 2008, escreve o intelectual, novos paradigmas foram colocados em xeque. O G20 surgiu como um reconhecimento de que os problemas globais exigiam mais vozes. Nesse mesmo contexto, o BRICS — que inicialmente era apenas um acrônimo criado por um economista do mercado financeiro — ganhou densidade política.
“O BRICS foi gradualmente se transformando em um fórum político”, avalia. Amorim recorda que, após um encontro com o Índia, Brasil e África do Sul (IBAS), em Brasília, em 2011, a África do Sul passou a integrar o bloco formalmente. A partir daí, o BRICS consolidou-se com uma agenda propositiva.
A expansão do bloco em 2023, com a adesão de novos membros, deu ao grupo um equilíbrio que Amorim considera raro: “Hoje, o BRICS alcança um equilíbrio justo entre representatividade e eficiência”.
Agenda
Diferentemente de outras coalizões de países em desenvolvimento, o BRICS tem uma atuação marcada por resultados concretos. Um dos exemplos mais citados por Amorim é o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), criado em 2014, que oferece financiamento público com foco em infraestrutura e sustentabilidade.
Na 17ª Cúpula do BRICS, realizada este ano no Rio de Janeiro, o bloco avançou em temas como comércio em moedas locais, investimentos, inteligência artificial, meio ambiente e saúde. Para Amorim, essa é a demonstração de que o BRICS não pretende apenas contestar a ordem vigente, mas construir alternativas viáveis.
“O BRICS não foi concebido como um rival do G7. No entanto, cada vez mais oferece algo que a antiga ordem não consegue: inclusão em vez de exclusão, reforma em vez de estagnação”, resume Amorim.