Sem compreender o passado colonial, o país não consegue vislumbrar um futuro soberano.
Por Milton Rondó – de Brasília
“Havia tantos assim nos jornais e apenas repetiam o que era dito no rádio e na televisão e até na conversa de alguns homens do depósito. O vento que soprava nas Ilhas Britânicas estava impregnado do cheiro do medo de quem pedia asilo, infectando a todos com o pânico de uma catástrofe iminente. Assim, esses artigos eram escritos e lidos, de forma simples e histérica, como se seus autores vivessem num mundo onde o presente não tinha ligação com o passado e nunca tivessem considerado que esse era o curso normal da história: a chegada em massa à Inglaterra de negros vindos de países criados pelo Reino Unido.”
Chimamanda Ngozi Adichie

Quando se apaga o passado, não se consegue entender o presente.
Com efeito, os imigrantes são fruto do colonialismo, que explorou e explora seus países de origem em benefício das metrópoles, interessadas apenas em suas riquezas — não no que resulta da pilhagem.
A reunião dos Brics, no Rio de Janeiro, representa mais uma iniciativa importante dos países do Terceiro e do Segundo Mundo, articulando-se e mirando o futuro.
Livres das amarras vetustas do passado colonial, podem preparar-se para as investidas do monstro colonial que, ferido, torna-se ainda mais belicoso e raivoso.
Haja vista as declarações concomitantes de Trump, ameaçando a taxação de 10% adicionais sobre produtos de países que integrem o grupo, e a ameaça de retaliação ao Brasil caso o meliante Jair Bolsonaro seja condenado pelos crimes que, de fato, cometeu.
A cena internacional, atualmente, resume-se a três categorias: os colonialistas (os de sempre), os colonizados e os que resistem — entre estes últimos, os Brics.
Entretanto, mesmo dentro do grupo fundador, há uma divisão nítida entre as três potências nucleares (China, Rússia e Índia) e as não-nucleares (Brasil e África do Sul). Estas duas terão de ser ainda mais criativas, pois suas diplomacias não contarão com o suporte das respectivas defesas, ao contrário das três primeiras.
Nesse sentido, terão de buscar coesão regional para compensar a fragilidade na defesa. O Brasil, finalmente, parece ter acordado para essa necessidade ao convidar para o encontro no Rio o Uruguai, o Chile, a Colômbia e o México. Bolívia e Cuba já eram países parceiros.
Ou seja, para o Brasil está posta a missão mais difícil, uma vez que a União Africana encontra-se em estádio de integração continental muito superior ao nosso.
Integração brasileira
Além disso, a integração brasileira com o Caribe afigura-se ainda mais difícil, considerando que o país sequer consegue se ver como caribenho — o que é, pela geografia, história e antropologia. Dessa negação decorrem enorme desconhecimento e ignorância sobre o Caribe e o próprio Brasil setentrional: suas histórias, culturas e gentes.
Em 1492, Anacaona: A Insurgente do Caribe (Editora Jandaíra), Paula Anacaona reflete:
“Mas será que realmente se conhece alguém quando, desde o início, prevalece um sentimento de superioridade? Colombo, em sua primeira viagem, certamente fala bem dos índios em seu diário, mas, na verdade, nunca fala com eles. E não é falando com o outro que o reconhecemos como sujeito? … Cristóvão Colombo certamente descobriu, sem querer, a América. Mas não descobriu os americanos.”
“O Brasil não conhece o Brasil. O Brasil tá matando o Brasil.” Atualmente, a frase aplica-se ao Congresso Nacional, que legisla apenas em proveito da oligarquia, como vimos recentemente ao tentar impedir o aumento da taxação do IOF, medida proposta para compensar a perda de arrecadação gerada pela isenção de imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais.
Internamente, também se aplicam as três categorias mencionadas: colonialistas, colonizados e resistentes.
Ao explicitar de forma tão grotesca seu colonialismo, Trump evidencia a nova desordem internacional, que nos demanda ter lado, conhecimento, ação e voz — a um só tempo.
Será uma disputa acirrada, em primeiro lugar, por corações e mentes no Brasil, na América Latina e no Caribe.
Vale notar o que Paula Anacaona recorda na obra já citada:
“As Caraíbas e as Américas eram muito mais populosas do que a Europa da época. Mas espalhar a ideia de ilhas desertas, ou povoadas apenas por um punhado de selvagens, certamente tornaria a colonização mais aceitável… Um mito sobre os taínos circulará rapidamente pela Europa e terá vida longa: o mito do bom selvagem. Cristóvão Colombo, no entanto, anota muitas vezes em seu diário que a terra é cultivada e explorada, e que a natureza, abundante e generosa, está longe de se encontrar abandonada. Mas a policultura em campos abertos desconcerta os europeus, acostumados à monocultura em campos cercados. Será por isso que Colombo, e mais tarde os colonos, espalharão equívocos sobre o modo de vida dos taínos? ‘Bárbaros que permanecem na Idade da Pedra e vivem em um paraíso’ ou ‘preguiçosos que só esticam o braço para colher o que cresce’? … Ou os taínos foram apresentados dessa forma para justificar mais facilmente a evangelização e o extermínio?”
Quanto há para entender! E ainda mais para sentir!
Em A Hora da Estrela (Editora Rocco), Clarice Lispector, observando sua Macabéa, escreve:
“Era a primeira vez que chorava, não sabia que tinha tanta água nos olhos… Mas também creio que chorava porque, através da música, adivinhava talvez que havia outros modos de sentir, havia existências mais delicadas e até com um certo luxo de alma. Muitas coisas sabia que não sabia entender… O mergulho na vastidão do mundo musical não carecia de se entender.”
Que possamos sempre tentar entender, inclusive — e principalmente — sentindo.
Milton Rondó, é diplomata aposentado.
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