Rio de Janeiro, 30 de Agosto de 2025

Tarifaço afasta direita paulista do clã bolsonarista

Arquivado em:
Quinta, 17 de Julho de 2025 às 11:26, por: Rui Martins

Em termos de imprensa e do mundo jornalístico, um dos importantes acontecimentos da semana, mesmo um tanto surpreendente, foi o editorial Aprendizes de Bolsonaro do jornal O Estado de São Paulo, também conhecido como Estadão, ao atacar com virulência o ex-presidente Jair Bolsonaro, seu clã político familiar, e os governadores Romeu Zema, de Goiás, Ronaldo Caiado de Minas Gerais e mais particularmente Tarcísio de Freitas de São Paulo.

Por Rui Martins, editor do Direto da Redação.
Tarifaço afasta direita paulista do clã bolsonarista | A chantagm de Trump rachou a direita bolsonarista e fortaleceu Lula.
A chantagm de Trump rachou a direita bolsonarista e fortaleceu Lula.
As críticas vieram na sequência da decisão do presidente norte americano Donald Trump de agravar a taxação dos produtos brasileiros exportados para os EUA para 50%, como punição pelo tratamento dado pelo STF ao ex-presidente Jair Bolsonaro, seguida da chantagem de ser anulada a taxação no caso de um decreto de anistia.
Essa chantagem ao governo brasileiro, equiparada como um atentado à soberania nacional, arquitetada em Washington, por Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, foi ignorada por alguns governadores.
Essa abstenção ao que considera como um ataque às instituições brasileiras irritou a direção do jornal Estadão, que reagiu duramente no editorial do domingo, dia 13 de julho: “O recente ataque do presidente americano, Donald Trump, às instituições brasileiras, supostamente em defesa de Bolsonaro, é só uma gota no oceano de males que o bolsonarismo causa e ainda pode causar aos brasileiros”.
E mais adiante…”é ultrajante a complacência de governadores como Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG) e Ronaldo Caiado (GO) diante dos ataques promovidos pelo presidente dos EUA ao Brasil. As reações públicas dos três serviram para expor a miséria moral e intelectual de uma parcela da direita que se diz moderna, mas que continua a gravitar em torno de um ideário retrógrado, personalista, francamente antinacional e falido como é o bolsonarismo.
Tarcísio, Zema e Caiado, todos aspirantes ao cargo de presidente da República, usaram suas redes sociais para tentar impingir a Lula, cada um a seu modo, a responsabilidade pelo “tarifaço” de Trump contra as exportações
brasileiras”.
Ora, o Estadão nos seus 150 anos representa a potência dos empresários, banqueiros e dirigentes da indústria e economia paulista, em outras palavras, a direita tradicional e conservadora, atingida em cheio pelo “tarifaço”.

Estadão acabou com o sonho do capitão Tarcísio

Nesta altura, com a divisão da direita,Tarcísio pode tirar o cavalo da chuva. Acabou seu sonho de chegar à presidência. O governador de São Paulo, também capitão do exército, estragou sua carreira ao colocar na cabeça, na avenida Paulista, no último pequeno comício de Bolsonaro, o boné vermelho de apoio ao presidente Trump – Faça a América maior de novo, como se tivesse mudado de nacionalidade e deixado de ser brasileiro. Como se tivesse virado norte-americano. Erro fatal, neste momento de uma onda de nacionalismo provocada por Trump.

Pensando ser muito esperto, reagiu à carta chantagista e aos 50% de Trump contra o Brasil sem coragem de atacar o presidente norteamericano, que mostra traços de ditador. Isso lhe valeu ser taxado de vassalo pelo ministro brasileiro de Economia Fernando Haddad.
Mas faltava a pá de cal no capitão sem farda, candidato à presidência, depois de ter perdido o apoio dos bolsonaristas ao tentar negociar um amaciamento nos 50% de Trump, esquecendo-se de que isso foi obra do filho do seu amigo Bolsonaro, com cuja benção se elegeu governador de São Paulo. Trocou os pés pelas mãos e conseguiu desagradar a gregos e troianos, criando condições para ser chamado de vassalo dos EUA!
A pá de cal veio de onde Tarcísio não esperava – foi condenado pelo editorial do jornal Estadão, em outras palavras, pelo porta-voz dos grandes empresários, dos donos da bola das empresas, indústrias, comércio e bancos do Estado de São Paulo.
O editorial do Estadão mostrou também ter rachado a direita, com a direita democrática tomando distância do grupo de extrema direita, do qual alguns líderes estão sendo julgados por tentativa de golpe de Estado.
Resta saber se a tentativa de golpe e se a tentativa de intervenção e chantagem dos EUA provocaram reações dentro das igrejas e comunidades evangélicas, sustentadoras do bolsonarismo.
Essa crise coincide também com o julgamento do ex-presidente Bolsonaro por tentativa de golpe. Ora, o clima criado por Trump com sua taxação de 50% ao Brasil não favorece manifestações em favor de Bolsonaro. (versão sonora no link  https://www.youtube.com/@rpertins )
Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.
Edições digital e impressa
 
 

 

 

Jornal Correio do Brasil - 2025

 

Utilizamos cookies e outras tecnologias. Ao continuar navegando você concorda com nossa política de privacidade.

Concordo