Usar IA não é apenas pedir respostas prontas, é criar percursos. É experimentar hipóteses improváveis, explorar possibilidades que talvez nunca nos ocorressem.
Por Carlos Seabra – de Brasília
Se nosso cérebro é uma imensa rede de conexões, onde cada pensamento nasce de um estalo elétrico entre neurônios, por que não chamar de sinapses artificiais aquilo que as inteligências artificiais fazem quando nos ajudam a pensar por diferentes caminhos?

Usar IA não é apenas pedir respostas prontas – é criar percursos. É experimentar hipóteses improváveis, explorar possibilidades que talvez nunca nos ocorressem. Como abrir uma gaveta de conexões não percebidas e ver surgir padrões antes invisíveis.
As sinapses artificiais não substituem as nossas, obviamente, mas elas as provocam, nos convidam a pensar de novo, conectar ideias distantes, enxergar o que estava escondido atrás das rotinas ou algoritmos sociais que tendem a nos empurrar sempre para mais do mesmo.
Na prática, pode ser um exercício de liberdade mental: testar, comparar, imaginar. Um estudante pode perguntar à IA não só a explicação de um fenômeno ou procedimento, mas novas formas de representá-lo. Um professor pode usá-la para enxergar aspectos da aula por outros ângulos, como quem gira um objeto no espaço. Artistas podem atravessar fronteiras, mesclando linguagens e rascunhando mundos, com palavras, sons, imagens .
Mas há sempre o cuidado: quem controla os circuitos dessas sinapses? Se a máquina amplia a imaginação, não pode também reduzir o pensamento crítico a consumo rápido de respostas? O risco é real — e por isso precisamos cultivar a autonomia intelectual.
Nossa memória
As sinapses artificiais, quando usadas de modo consciente, se tornam próteses do pensamento. Não apenas ferramentas para repetir, mas instrumentos para criar. Conectam nossa curiosidade com o inesperado, nossa memória com o desconhecido, nossa experiência com o porvir.
Talvez parte do futuro que estamos a construir seja um grande laboratório de sinapses, naturais e artificiais, se cruzando em múltiplas direções. Mas laboratórios não são neutros: podem ser apropriados pelo capital, transformados em usinas de vigilância e exploração, onde cada dado é extraído como mais-valia digital. Ou podem ser organizados como projetos coletivos, guiados por ação política e vontade social, para produzir conhecimento como bem comum.
As sinapses artificiais só terão sentido histórico se forem colocadas a serviço da emancipação concreta – e não da reprodução da dominação. O futuro não será dado pelas redes ou pelas boas intenções: será resultado de disputa, organização e prática coletiva. Porque só na luta é que novos mundos possíveis deixam de ser promessa e se tornam realidade.
Carlos Seabra, é Diretor da Oficina Digital, criador de jogos de tabuleiro e digitais, autor de livros de literatura infantil e juvenil. Editor de publicações e produtor de conteúdos culturais e educacionais de multimídia e internet, palestrante, consultor e coordenador de projetos culturais e de tecnologia educacional.
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