Paulo Guedes nunca escondeu seu desejo de privatizar tudo e de apertar ao máximo possível o torniquete em termos de austeridade fiscal e de arrocho na política monetária. Pois esse é o pessoal que adora dar uma esticadinha a Miami sempre que pode.
Por Paulo Kliass – de Brasília
Esse povo do sistema financeiro adora encher a boca para carregar de elogios ao sistema de política econômica dos Estados Unidos. Para os arautos do neoliberalismo e defensores do modelo de perpetuação das desigualdades em nossas terras, os norte-americanos é que estão corretos na organização da sua economia e da sua sociedade. Talvez essa seja uma das razões pelas quais o discurso do candidato a todo-poderoso no comando da economia do governo Bolsonaro tenha encontrado tanta receptividade e eco junto a essa parcela da elite endinheirada. Afinal, Paulo Guedes nunca escondeu seu desejo de privatizar tudo e de apertar ao máximo possível o torniquete em termos de austeridade fiscal e de arrocho na política monetária.American way of life, ma non troppo
Se fosse por aqui, por muito menos deveriam ser logo taxados de comunistas, intervencionistas, demagogos e populistas. Afinal, vejam a “ousadia” que podemos encontrar na página do próprio Fed na Internet: “A política monetária nos Estados Unidos compreende as ações e comunicações do Federal Reserve para promover o máximo de emprego, estabilidade nos preços e taxas de juros moderadas de longo prazo, as metas econômicas que o Congresso instruiu o Federal Reserve a perseguir.” (em tradução livre do autor). Caso esse tipo de abordagem estivesse valendo para a nossa realidade, com certeza os rumos da política monetária e da política econômica teriam sido muito diferentes daquilo que vem sendo praticada há décadas. Mas chama atenção, em especial, a realidade dos últimos tempos já durante o governo Bolsonaro. A evolução do comportamento da taxa oficial de juros parece obedecer a critérios extraterrestres e o diagnóstico que embasa as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) deve pertencer a entes atuantes em uma realidade paralela. Esse colegiado que se reúne a cada 45 dias para deliberar a respeito do patamar da Selic é composto exatamente pelos 11 integrantes da diretoria do BC. A liturgia do cargo e do poder faz com que eles passem uma terça e uma quarta-feira para discutir sobre a realidade econômica brasileira e internacional, para então finalmente deliberar sobre a taxa de juros. Ocorre que toda essa pompa que reveste cada um dos encontros é praticamente desnecessária, uma vez que o comitê quase sempre opta por referendar as famosas “expectativas do mercado”. O BC realiza semanalmente uma enquete bem seletiva junto aos integrantes da alta direção de instituições privadas atuantes no sistema financeiro. Não são ouvidas vozes críticas às teorias da ortodoxia e do monetarismo. Afinal, não se pode correr o risco de “contaminar” a pureza da narrativa da ortodoxia e do doutrinarismo. Um banho de realidade e bom senso é sempre muito perigoso sob tais circunstâncias.Financismo, Focus, Copom, Bacen: relações incestuosas
Assim, o resultado da pesquisa Focus aponta para aquilo que o Copom deverá decidir na sequência. E há 4 semanas, a nata do financismo tem apontado para a necessidade de uma taxa oficial no nível de 9,25% ao ano. As editorias de economia da grande imprensa se encarregam de apertar o cerco e colocar um bonito laço no pacote, criando a falsa ilusão de que existe um suposto consenso dentre os “especialistas” a esse respeito. Mentira! Ouvem apenas os que participam da pesquisa ou os que comungam da defesa dos interesses do sistema financeiro. E ponto final. Caso o Copom promova mesmo mais essa sétima elevação da SELIC em sequência, teremos uma sequência ininterruptas desde a 237ª reunião realizada em março, quando a taxa saiu de 2,00% para 2,25%. Ou seja, ao longo de 9 meses a taxa teria sido multiplicada em quase 5 vezes, mais exatamente um crescimento de 356%. Uma loucura! Qual outro preço estratégico em nossa economia teria sofrido tal aumento em tão pouco tempo? Na verdade, as relações entre os integrantes da alta tecnocracia da área econômica é marcada por uma complexa rede de relações incestuosas, onde o interesse do financismo sempre prevalece na tomada de decisões do governo.
Alta da Selic: mais um tiro no pé
Além disso, provocaram também um aumento generalizado de preços na economia os efeitos da desvalorização cambial premeditada, intencional, repentina e acelerada. Com a nossa moeda perdendo capacidade frente ao dólar e demais moedas estrangeiras, dá-se um aumento imediato dos preços internos dos produtos importados, sejam eles matérias primas, bens finais manufaturados ou de investimento. O mito liberaloide de acabar com barreiras e fronteiras, sem a concepção de nenhum tipo de estratégia de desenvolvimento por trás, termina por aprofundar a desnacionalização e a desindustrialização de nossa economia. E a política cambial adotada com viés de desvalorização implica em preços maiores quando transformados em reais. Ora, sob tais condições, a elevação da taxa oficial de juros revela-se como um verdadeiro tiro no pé na absoluta maioria dos atores econômicos. A Selic em alta significa maiores custos financeiros de forma generalizada, ainda mais se considerarmos a complacência do BC no que se refere aos escandalosos spreads praticados pelos bancos e demais instituições financeiras em suas operações com os clientes. Assim, o que se verifica é um desestímulo ao aumento da capacidade instalada de produção de bens e serviços, com consequência direta sobre desemprego e rendimentos internos de todos os setores com exceção do financismo. Por outro lado, a taxa também remunera a nossa dívida pública, obrigando à realização de ainda maiores despesas do governo federal para o pagamento dos custos financeiros da mesma. Em outras palavras, essa nova decisão do Copom revela-se como um obstáculo a mais à recuperação tão necessária do investimento e um impedimento à superação do quadro de estagnação e recessão que já dura desde 2015.Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.
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