Nova perícia da Polícia Civil indica falhas na cadeia de custódia de arquivos usados para acusar Rogério Andrade, preso há 10 meses por suspeita de mandar matar rival no jogo do bicho.
Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro
Um laudo técnico do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) pode mudar os rumos do processo que mantém preso, há quase um ano, o bicheiro Rogério Andrade, apontado pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) como mandante do assassinato de Fernando Iggnácio, ocorrido em 2020. Segundo o diário conservador carioca a jornalista Vera Araújo, de O Globo, o documento elaborado por um perito da Polícia Civil levanta dúvidas sobre a integridade e autenticidade de mensagens extraídas do celular do chefe de segurança de Andrade, que são apontadas como principal prova contra o contraventor.

O material analisado corresponde a um HD externo e 16 CDs com dados obtidos da nuvem de Márcio Araújo, sargento da reserva e segurança pessoal de Rogério Andrade. É nesse conjunto que aparece o registro de uma mensagem enviada por um perfil identificado como “capitanJacks” — supostamente usado por Rogério — em que se lê: “Cabeludo é o que interessa!”, numa aparente referência codificada a Iggnácio, segundo a interpretação do Gaeco/MPRJ.
O problema é que, segundo o perito Vinicius Trindade, não foi possível garantir a fidedignidade dos arquivos, já que não houve apresentação da cadeia completa de custódia — o que, em termos técnicos, significa que não se sabe com precisão quem acessou os dados, como foram armazenados e transportados ou se sofreram alterações.
A análise foi anexada no último dia 17 aos autos da ação penal contra Márcio Araújo, mas a defesa de Rogério Andrade estuda pedir o uso do documento como prova emprestada, a fim de reforçar o pedido de relaxamento da prisão preventiva do bicheiro. Os advogados já haviam interrompido a audiência de instrução e julgamento em junho, justamente alegando a ausência do laudo do ICCE nos autos do processo de Rogério.
Ministério Público
O Ministério Público estadual ainda deve se manifestar formalmente sobre o caso nesta terça-feira. Enquanto isso, Rogério permanece na Penitenciária Federal de Campo Grande (MS), submetido ao Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), enquanto seu segurança responde ao processo em liberdade.
Embora o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconheça que falhas na cadeia de custódia podem levar à anulação de provas, essa decisão não é automática. Cabe ao Judiciário avaliar se houve prejuízo concreto à defesa. O pedido de liberdade de Rogério Andrade ainda está pendente de apreciação.
A investigação que levou à prisão de Andrade foi deflagrada em 2024, quando o Gaeco passou a reexaminar o assassinato de Fernando Iggnácio, motivado por uma antiga disputa entre facções do jogo do bicho e pela herança do bicheiro Castor de Andrade, morto em 1997. Além de Rogério e Araújo, outros quatro policiais militares foram denunciados. Um deles morreu no decorrer do processo.
A decisão agora está nas mãos da Justiça: o laudo técnico poderá ou não abrir as portas da prisão para Rogério Andrade — um dos nomes mais conhecidos do submundo do jogo ilegal no Rio de Janeiro.