As autoridades israelenses reforçaram o bloqueio existente a Gaza no início do conflito, em outubro de 2023, e impuseram uma proibição total de dois meses de fornecimento em março e abril.
Por Redação, com The Guardian – de Gaza
Nas ruas superlotadas e cobertas de escombros da Cidade de Gaza, não houve muita surpresa com o anúncio de que especialistas apoiados pela ONU acreditavam que as cenas de desespero agora poderiam ser formalmente descritas como fome .

— Isso é algo que temos dito há meses, e temos testemunhado isso, temos vivido e sofrido isso. Nos sentimos muito impotentes, muito doentes e muito cansados — disse ao diário britânico The Guardian Amjad Shawa, diretor da Rede de ONGs Palestinas, que esteve na Cidade de Gaza durante toda a guerra de 22 meses.
Na vêspera, a Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (IPC), uma organização reconhecida mundialmente que classifica a gravidade da insegurança alimentar e da desnutrição, descobriu que três limites principais para uma declaração de fome foram atingidos no outrora movimentado centro comercial e administrativo.
Aumento
Apenas quatro períodos de fome foram declarados pelo CPI desde sua criação em 2004, sendo o mais recente no Sudão, no ano passado. “Esta fome é inteiramente causada pelo homem e pode ser interrompida e revertida”, afirma o relatório.
O documento alerta para um aumento exponencial de mortes se “um cessar-fogo não for aplicado e os suprimentos alimentares essenciais e os serviços básicos… não forem restabelecidos imediatamente”.
Os mais vulneráveis entre os palestinos que vivem atualmente na Cidade de Gaza, estimados entre 500 mil e 800 mil pessoas, são os que correm maior risco, especialmente os idosos, os jovens, os doentes ou os socialmente isolados, disseram autoridades humanitárias.
— Não tenho nada para cozinhar e nem dinheiro para comprar lenha. Comemos um pouco de comida pela manhã para saciar a fome e um pouco mais à noite. Como apenas um pouco de za’atar (mistura de temperos), queijo ou apenas sal com pão, sem vegetais, nada cozido — disse Sabah Antaiz, 55, que foi deslocada do bairro de Tuffah, no leste da Cidade de Gaza, por recentes ofensivas israelenses .
Sozinhos
Antaiz tem hipertensão, diabetes e problemas cardíacos. Seu marido, de 60 anos, está muito doente e não pode trabalhar nem buscar alimentos.
— Não temos mais ninguém, ninguém para me sustentar ou mesmo nos trazer comida. Perdi cerca de 10 membros da minha família em um ataque aéreo no bairro de Tuffah: meu pai, minha mãe, sobrinhos e sobrinhas, os filhos dos meus irmãos e irmãs — lamenta Antaiz.
As autoridades israelenses reforçaram o bloqueio existente a Gaza no início do conflito, em outubro de 2023, e impuseram uma proibição total de dois meses de fornecimento em março e abril. Mais suprimentos chegaram a Gaza nas últimas semanas, embora apenas uma fração do necessário, segundo agências humanitárias.
O preço do açúcar passou de cerca de US$ 100 (R$ 550) o quilo para cerca de US$ 7, mas muitos outros produtos continuam caros demais para os 90% da população sem renda. Os tomates, por exemplo, custam US$ 30 o quilo.
Evidências
Além dos doentes e idosos, há também aqueles que estão na miséria. Após quase dois anos de deslocamento e privação, poucos na Cidade de Gaza têm qualquer reserva física ou financeira.
— Esta é uma população que foi despojada de qualquer resiliência… Eles não têm absolutamente nada. Não há margem de segurança alguma. Eles estão no limite — resumiu um funcionário humanitário da ONU responsável pela supervisão das operações em Gaza.
Apesar das evidências, Israel, por sua fez, rejeitou as conclusões do relatório do IPC, dizendo que não há fome em Gaza e que as conclusões foram baseadas em “mentiras do Hamas, propagadas por organizações com interesses pessoais”.