O período de incêndios vorazes coincide com a onda de calor mais intensa já registrada no país, que se deu entre os dias 3 e 18 desse mês.
Por Redação, com RFI – de Madri
A Espanha segue sofrendo as consequências de incêndios espalhados pelo país. Já são mais de 350 mil hectares arrasados pelo fogo. E, apesar de esforços nacionais e internacionais estarem sendo empregados, ainda há focos ativos em diferentes partes do território espanhol. O assunto é considerado central na reunião do Conselho de Ministros que acontece nesta terça-feira, sob a presidência do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez.

Conforme adiantou o jornal El País, um dos objetivos do encontro é declarar 16 das 17 comunidades autônomas espanholas como “zonas catastróficas”. Todas as regiões, menos o País Basco e as cidades autônomas de Ceuta e Melilla, passarão a ser consideradas como “zonas afetadas gravemente por emergências de proteção civil”.
Uma vez que essas áreas passem a ser consideradas oficialmente como “zonas catastróficas”, a resposta do governo central às diferentes necessidades locais deve ser mais ágil e direta. O Estado poderá, por exemplo, conceder assistência financeira às vítimas de catástrofes. Também poderão ser postas em prática reduções e isenções de impostos, como uma forma de beneficiar as populações mais afetadas. Além disso, os trâmites burocráticos relacionados à reconstrução de áreas atingidas devem ser facilitados.
Vale ressaltar que o governo espanhol não restringirá o status de “zona catastrófica” às regiões atingidas pelos incêndios mais recentes, ocorridos em agosto. Estarão incluídos também territórios afetados por outros fenômenos, como tempestades e fortes enchentes. Todos eles registrados desde junho deste ano.
Consequências imediatas
Até a segunda-feira, 14 incêndios de nível 2 – numa escala de gravidade que vai até 4 – afetavam a Espanha. Desses, 10 são na região de Castela e Leão; 3, em Astúrias, e um na Galícia. Além desses incêndios em situação preocupante, há três focos considerados estabilizados e sete que estão controlados.
As informações foram confirmadas por Virginia Barcones, diretora de Proteção Civil e Emergências do governo espanhol. Em uma entrevista concedida à rádio Onda Cero, Barcones explicou que, apesar da evolução positiva dos trabalhos de combate ao fogo, ainda há preocupação em relação ao tema. Também afirmou esperar que as condições meteorológicas facilitem a extinção dos focos de incêndio.
O fogo que se alastrou por diferentes regiões da Espanha desde o último dia 8 de agosto e já arrasou 358 mil hectares, segundo o Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais. Quatro pessoas perderam a vida e dezenas ficaram feridas, além dos incontáveis danos causados aos animais e ao meio ambiente. O período de incêndios vorazes coincide com a onda de calor mais intensa já registrada no país, que se deu entre os dias 3 e 18 desse mês. Ao todo, em 2025, já são mais de 400 mil hectares devastados pelo fogo no território espanhol.
Além dos meios locais e nacionais, está sendo empregada ajuda estrangeira no combate aos focos de incêndio. Países como República Checa, Eslováquia, Alemanha, Finlândia, França e Portugal enviaram reforços. Esse é o maior dispositivo de ajuda internacional que já chegou à Espanha, segundo a diretora da Proteção Civil e Emergências, Virginia Barcones.
Disputa política
A tragédia dos incêndios na Espanha gerou um significativo enfrentamento político entre a direita e o governo central, de esquerda. O Partido Popular (PP), como principal sigla da oposição, tem liderado essa “batalha política”, utilizando os incêndios para criticar a gestão governamental e propor as suas próprias soluções.
Alberto Núñez Feijóo, líder do PP, chegou a publicar no X o seguinte texto: “Cinco dias pedindo reforço para as Forças Armadas e a maior parte do que foi solicitado ainda não chegou. Cinco anos sem aprovar um Mecanismo Nacional de Resposta de Proteção Civil. Fundos de prevenção sem investimento. O dever de Sánchez é prestar socorro, não economizar e improvisar sempre”.
Como contraponto ao que chama de “paralisia política” do governo central, Feijóo tem buscado concentrar o debate na ideia de que a principal causa da onda de incêndios é a ação humana. O líder popular chegou a declarar que 80% dos focos seriam “intencionais”, embora tal porcentagem não encontre respaldo nos dados oficiais.
Feijóo também apresentou o Plano Integral de Ajuda, Recuperação e Prevenção para o Meio Rural e Florestal, composto por 50 medidas. O Partido Popular deve apresentar essas ideias diante do Parlamento, propondo suas soluções para a crise. Como medida “estrela”, está a criação de um “registro nacional de incendiários”, que prevê a geolocalização de condenados por iniciar incêndios via pulseiras eletrônicas.
Em nome do governo nacional, a ministra espanhola da Defesa, Margarita Robles, acusou os representantes regionais do Partido Popular, cujos territórios foram atingidos pelos incêndios, de não cumprirem suas responsabilidades. Ao mesmo tempo, Robles apelou à consciência desses governantes que acusam o governo central de omissão: “eles sabem perfeitamente, pelo menos no caso do exército, como se trabalhou desde o primeiro momento”.
A ministra da Habitação e Agenda Urbana, Isabel Rodríguez, negou que haja uma polarização, colocando sobre o Partido Popular a responsabilidade sobre a agitação. “Há quem provoque tensões e há quem trabalhe e defenda o interesse geral”, pontuou. Rodríguez sublinhou ainda que a postura habitual do líder do PP é “tirar proveito” desse tipo de situação para pedir a convocação de novas eleições. “É a única coisa que sabe fazer o senhor Feijóo”, concluiu.