
Os mortos e desaparecidos foram estimados em cerca de 30.000, quando localizaram mais de 700 centros de prisões clandestinas. O tribunal julgou e condenou 1.058 réus por crimes de torturas, homicídios, violações, abusos, roubos. Trancafiou em prisão perpétua militares delinquentes executores dos “voos da morte”, do feminicídio de mulheres grávidas e do sequestro e venda de bebês. O veredito, que determinou reparação e indenização às vítimas, foi lido para um grande público dentro e fora do tribunal.
O presidente Néstor Kirchner, em 2004, pediu perdão “pela vergonha do silêncio de vinte anos sobre as atrocidades cometidas pelo Estado” e tomou da Marinha os edifícios da ESMA, que foram transformados em sede do Museu da Memória e dos Direitos Humanos inaugurado em 2015.
Ex-Esma

Em verdade em verdade vos digo, Pilatos, o governador romano de mãos sujas, morreria no vaso sanitário de sua cela com a calça do pijama arriada, como o general Videla. Apodreceriam na prisão o Sumo Sacerdote Caifás, presidente do Sinédrio - que abrigaria um Museu para contar essa história tenebrosa, assim como seus cúmplices saduceus e filisteus.
As avós da Praça de Maio, lideradas por Sant`Ana, exigiriam a condenação de Herodes, o Tetrarca da Judeia, por decapitar João Batista, com pena dobrada por infanticídio, como ocorrerá um dia com o oligarca Netanyahu lá naquela terra considerada santa. Mofariam atrás das grades o centurião Cássio, que furou Jesus com lança e escarrou em seu rosto, os soldados que o chicotearam e enfiaram nele a coroa de espinhos e os que o pregaram na cruz. Simão Cirineu receberia a comenda da Ordem de Cristo.
Isso se Jesus fosse crucificado em Buenos Aires. Mas Jesus nasceu em Belém de Judá, lugar de impunidade tanto quanto Belém do Pará, onde a manjedoura de Jesus ficaria dentro do Forte do Presépio. Lá como em todo o território nacional, a ditadura roubou nossa memória, escondeu a documentação, anistiou torturadores, o maior deles, o coronel Brilhante Ustra, homenageado pelo Coiso. Mas na Argentina não foi assim que a banda tocou, como está documentado no Museu da Memória da Ex-Esma.
Voos da morte

Os dados foram cruzados com as planilhas e os planos de voos, contendo os nomes dos pilotos no período de 1976 a 1979. Cerca de 5 mil pessoas desapareceram assim, atiradas nuas no mar depois de adormecidas sob o efeito da droga denominada cruelmente de “pentonaval”. O ex-militar da Marinha, Adolfo Scilingo, confessou publicamente ter participado de pelo menos dois “voos da morte” em entrevista ao jornalista Horácio Verbitsky e foi condenado por tribunais espanhóis a 1.724 anos de prisão.
Outros corpos aparecidos na praia foram enterrados sem identificação com a cumplicidade de policiais, médicos e até juízes, depois de atirados do avião Skyvan Pa-51, identificado pela jornalista Miriam Lewin presa na ESMA e dada por um tempo como desaparecida.
No Brasil, o terrorismo de Estado não foi menor, mas a documentação permanece inacessível. Aqui nenhum torturador foi julgado e preso. Aqui militares mataram, esfolaram e continuam impunes. Dentro de três meses, o golpe de 1964 completa 60 anos e ainda morremos de vergonha pelo silêncio ensurdecedor agravado com a extinção da Comissão de Mortos e Desaparecidos no governo do Coiso.
Os fornos de Cambahyba

Os manifestantes reivindicaram o tombamento e a desapropriação da usina e da casa grande, sem que a mídia desse a devida importância. Temos muito a aprender com los hermanos. Confesso ter saído arrasado da visita ao Museu da Ex-Esma, mas ao mesmo tempo esperançoso pela força da resistência ali contida. A recuperação da memória – como eles dizem – dói, mas cura.
- A memória arderá até que tudo seja como sonhamos – escreveu Paco Urondo, fuzilado pela ditadura. Sua filha Cláudia e seu genro Mário também foram sequestrados, torturados e assassinados pelos militares. Levam o nome de Paco Urondo uma pracinha em Porto Madero, um centro cultural da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires e o Centro Cultural de Santa Fé. A memória arde.
Desejo um Feliz Natal aos raros e fieis leitores, com as lembranças vivas do Jesus porteño, ao lado deste poema preso e, enfim, livre:
Aquí, estamos, estás
estamos, vos, yo, todos.
Mientras mis manos puedan escribir
mientras mi cerebro pueda pensar,
estaremos vos, yo, todos
y habrá un mañana.
SOBRE ANA MARIA PONCE

“Na segunda-feira de carnaval, um meganha, que foi me buscar no “Aquário” (Pecera), me diz que eu tinha que descer ao “Porão”, porque a Loli - esse era seu apelido - precisava falar comigo. Eles me levam ao porão. Não sei o que Loli terá inventado para fazer esse pedido. Quando ela entra, Pedro Cacho diz a ela:
- “Prepare-se, vamos levá-la para La Plata”.
Nós nos olhamos e nos despedimos para sempre. Loli percebeu, e eu também, do que estava por vir. Ela tirou um envelope da bolsinha, me deu, e disse:
- “Guarde isso”.
O envelope continha os poemas que ela foi escrevendo enquanto estava sequestrada, poemas de prisioneira. Com Alicia Milia, os conservamos, e alguns anos atrás, conseguimos entregá-los ao seu filho. Levaram Loli, eu fiquei no porão, desesperada, com a certeza sobre o que ia acontecer.
Referências:
- Horacio Verbitsky: O Vôo. Rio. Editora Globo. 1995. Tradução de Paulo Octaviano Terra
- Miriam Lewin: Skyvan, aviones, pilotos y archivos secretos. Buenos Aires. Sudamericana. 2017
- Lucía García Itzigsohn. Escribir la ESMA. Buenos Aires. Tiempo Argentino. 2023 Por José Ribamar daBessa Freire, doutor em Letras, é professor da Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO e coordenador do Programa de Estudos dos Povos Indígenas da UERJ. Foi professor em universidades peruanas e em cursos para professores indígenas. Publicou livros e artigos no Brasil e no exterior. Diretoda Redação é um fórum de debates publicado no jornal Correio do Brasil pelo jornalista Rui Martons.