As eleições no Brasil deram continuidade a três fatos das exacerbadas lutas políticas de classes. O primeiro, as manifestações de junho de 2013, pondo em causa descontentamentos de largas camadas médias, sequestradas pela direita e extrema-direita com a ajuda dos monopólios midiáticos. Criou-se assim uma extensa base social dessas forças.
Por Walter Sorrentino - de Brasília O segundo foi a ruptura do pacto democrático vigente com o golpe jurídico-parlamentar do impeachment de Dilma Rousseff em 2016, com apoio de um consórcio empresarial e midiático, capitaneado pela atuação facciosa e partidarizante da maior parte do aparelho judicial.Lava Jato
Atua aí a toga, em essência o Partido da Operação Lava Jato, que se faz presente pelo superministério do juiz Sérgio Moro. Bolsonaro nomeia um “inimigo interno” para manter sua pregação polarizadora do país. Já é conhecido o inimigo: nós, a esquerda, as forças progressistas e os movimentos sociais organizados como o MST. Ameaça-se até enquadrar o comunismo na luta antiterrorismo e, não subestimemos, estrangular jurídica e financeiramente o PT. Serão restringidas as liberdades fundamentais, de cátedra e da autonomia universitária. de imprensa, de pensamento, organização e organização política do povo. Um governo ultraconservador nos costumes, obscurantista contra a cultura e a educação, os direitos civis e humanos. Neste sentido as forças do clã Bolsonaro representam o polo mais virulento do futuro governo que chegou a propor o fechamento do Superior Tribunal Federal. Um governo ultraliberal, com os Chicago´s boys em posição de alto poder centralizado para uma agenda radical de austeridade, Estado mínimo, reformas anti-trabalho e anti-previdência, tratamento de choque do défice fiscal derrogando conquistas do povo e da Federação, privatizações e abertura indiscriminada econômica e financeira. A sustentação é dada pelo sistema financeiro. No governo Bolsonaro, terminaram os intermediários. As grandes corporações é que conduzirão diretamente e com autonomia a política econômica do governo. Tal política econômica indica claramente um caráter neocolonial do novo governo, no rumo de realinhamento crescente do novo governo com os EUA. A agenda implica profunda desnacionalização e continuidade acelerada da desindustrialização, contrárias ao interesse nacional de setores produtivos e envolve rupturas de compromissos assumidos pelo Estado, como a retirada do Brasil como sede da COP-25 em 2019 e o anúncio da mudança da Embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, as relações com o Mercosul, o mundo árabe e China. Entretanto, isso constitui uma linha de tensão no novo governo. Nada foi tratado com a indústria nacional e são contraditórias as declarações de diversos estratos do governo sobre a privatização da Petrobras e outras grande estatais. Aqui se fazem presentes as Forças Armadas, outra das forças sustentadoras. Compõem a maioria do governo, com 8 ministros e o vice-presidente da República, quadros dos mais preparados, localizados em postos estratégicos e que aparentam funcionar como um cordão de isolamento de pressões políticas e, ainda, como força de contenção do governo Bolsonaro. Possuem projeto e visão própria sobre o desenvolvimento do país e dos seus interesses estratégicos. No geral, manifestam a preocupação com os riscos de politização e quebra de hierarquia nas Forças Armadas, são mobilizados pela luta contra a corrupção, com uma visão no geral retrógrada das forças políticas e desvinculando as questões de interesse nacional da questão democrática.Congresso Nacional
Outra linha de tensão se dará com Congresso Nacional. Gera muitas reações a pregação de Bolsonaro por um governo de ruptura com a política e com a forma de se relacionar com o parlamento, distanciando-se dos partidos na formação do governo e, por consequência, buscando criar uma nova dinâmica que substitua o chamado “presidencialismo de coalizão”. O parlamento será palco privilegiado da disputa política, pois este buscará se manter como um polo autônomo de poder. Face a isso, acompanhando o curso político real e a correlação de forças presente, cabe-nos atuar combinando Resistência para fazermos frente a um governo de extrema-direita; Amplitude, pois devemos reconhecer que somente com um amplo movimento político poderemos fazer frente a esta nova ordem; e Sagacidade para saber explorar as contradições no seio do inimigo. Ao mesmo tempo, por evidente, nova onda de mobilizações sociais serão indispensáveis como fator de resistência e contenção de tal agenda. Será uma oposição firme e mobilizadora, que não apenas nega como também afirma e constrói outra agenda para o país, a que obteve 47 milhões de votos. A radicalidade na oposição a Bolsonaro está em razão direta com a amplitude política. O núcleo central da tática será o esforço de trabalhar convergências entre forças heterogêneas, que tenham como ponto em comum a defesa da democracia. Uma ampla Frente Democrática, constituída de vários elos que se articulam contra a agenda do novo governo, no Parlamento, entre governadores da esquerda progressista, de Reitores das Universidades, de estudantes e centrais sindicais, as frentes de mobilização popular, como a Frente Brasil Popular, a Frente Povo sem Medo e amplas articulações nacionais e internacionais. O grande desafio deste amplo movimento deve ser a defesa do Estado Democrático de Direito como pré-condição para se estabelecer o debate sobre as propostas para tirar o país da crise econômica e política. Ele se soma a outras reivindicações, como a defesa dos direitos e das conquistas sociais, a defesa da soberania e das liberdades. Isso exigirá desprendimento, flexibilidade e paciência. A solidariedade internacional ativa ao Brasil e à democracia, a qual agradecemos de coração, tem sido fundamental para nossas lutas. Esperamos seguir contando com ela na forma de monitoramento sistemático das agressões à democracia e pela liberdade de Lula, preso político. O Brasil e o povo brasileiro se levantarão, têm forças acumuladas e ideais firmes, lideranças renovadoras para conduzir os brasileiros à retomada de uma trajetória nacional de desenvolvimento, soberania e autodeterminação, o crescimento econômico, a distribuição de renda, e resgatar a democracia e os direitos sociais. Enfim, resgatar a dignidade do povo e da nação. Informe apresentado na reunião do Grupo de Trabalho do Foro de São Paulo, em 8 de dezembro de 2018.
Walter Sorrentino, é médico, vice-presidente nacional do PCdoB. Da coordenação nacional da Frente Brasil Popular. Diretor da União Brasileira de Escritores e preside o Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois.
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