Essa postura política exitosa, focada no Poder Legislativo por parte dos interesses econômicos da agropecuária no Brasil, parece resultar das inovações implementadas a partir da derrota sofrida logo na retomada das eleições democráticas, após o longo período autoritário que cassou o direito de voto para presidente da República.
Por Márcio Pochmann - de São Paulo
Nas eleições gerais de 2018, a representação política dos negócios econômicos vinculados ao complexo agropecuário no parlamento brasileiro cresceu 7,1% em relação ao resultado de 2014. Ademais do sucesso obtido na expansão eleitoral, o lobby das empresas e associações do agronegócio identificado por Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) apresentou importante capacidade de renovação, uma vez que somente 45% dos eleitos em 2014 conseguiram se reeleger em 2018.Inovações e mudanças
Para isso, inovações e mudanças precisaram ser realizadas para alcançar o êxito da estratégia política implementada. O aportuguesamento da palavra inglesa agribusiness concedeu inovação ao setor com a popularização do termo agronegócio, visando substituir o conceito do rural identificado como atraso pelo moderno conjunto de atividades agrícolas e industriais voltadas à produção em grande escala e de conexão do campo com o consumidor final. A mudança metodológica de aferição do agronegócio destoou da adotada tradicionalmente pelo IBGE, pois apontava decréscimo da participação relativa da agropecuária no Produto Interno Bruto (PIB) e na ocupação total. Atualmente, o IBGE aponta que a produção agropecuária equivale a 5,9% do PIB e a 9,1% das ocupações dos brasileiros. Mas, de acordo com a métrica do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP, em parceria com a Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq) e Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a participação do agronegócio atinge a quase 27% do PIB e a 19,5% do total dos ocupados no país. Dessa forma, o agronegócio no Brasil seria, proporcionalmente ao PIB, quase duas vezes superior ao dos Estados Unidos (14%), embora ainda inferior ao de Gana (63%) e da Etiópia (86%). Apesar da contida presença da população e, por consequência, da quantidade de eleitores vinculados ao meio rural, a conquista do voto para a formação da bancada do agronegócio tem sido bem-sucedida. Sinal disso é o crescente descompasso existente entre a minoritária população de eleitores no meio rural (13% do total) e a maior representação política do ruralismo no parlamento (50% do total).Sistema eleitoral
O fato de o sistema eleitoral vigente favorecer a decisão do voto no candidato, muito mais do que na legenda partidária ou no programa e ideário defendidos, permite que o poder econômico se estabeleça com maior capacidade ao atuar de forma organizada. Para o Observatório do Agronegócio no Brasil, por exemplo, a estratégia política dos interesses econômicos do complexo agropecuário se alimenta de centros pensantes como, por exemplo, o Instituto Pensar Agro (IPA). Em geral, são institutos de estudos e pesquisas que também reúnem lobistas e executivos do agrarismo. Para tanto, recebem financiamentos generosos de institutos patronais e empresas nacionais (JBS, Marfrig, entre outras) e corporações transnacionais (Bunge, Cargill, Bayer, Syngenta, Basf, Nestlé, Danone e outras). Isso não é novo no Brasil, pois basta relembrar a atuação do Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPÊS) e do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) que, no início da década de 1960, agregaram a inteligência civil e militar de direita em defesa do conservadorismo. Naquela oportunidade, o IPÊS e o IBAD também contaram com financiamento de instituições patronais internas e externas (American Economic Foundation e American Information Committee) e apoio da mídia comercial (Jornal do Brasil, O Globo, Correio da Manhã, Última Hora e outros) e de representantes políticos, eclesiásticos e artistas, conforme revelou René Armand Dreifuss (1964: a conquista do Estado). Ao se voltar ao período da República Velha, compreende-se também o papel desempenhado pelo capital estrangeiro e nacional na atuação sobre o Parlamento em defesa dos seus interesses econômicos dominantes. No final do século XIX, por exemplo, empresas inglesas e alemãs controlavam parcela significativa das exportações das commodities da época, segundo Antônio Barros de Castro (As empresas estrangeiras no Brasil).Márcio Pochmann, é economista, pesquisador e político brasileiro. Professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi presidente da Fundação Perseu Abramo de 2012 a 2020, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, entre 2007 e 2012, e secretário municipal de São Paulo de 2001 a 2004. Concorreu duas vezes a prefeitura de Campinas-SP (2012 e 2016). Publicou dezenas de livros sobre Economia, sendo agraciado três vezes com o Prêmio Jabuti.
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