O lema ‘Deus, Pátria e Família’ não passa de um slogan para ludibriar incautos.
Por Milton Rondó – de Brasília
“Não pode ser que estejamos aqui para não poder ser”
Julio Cortázar
A extrema-direita caracteriza-se pela ausência de ética e de moral.
Na semana passada, Jair Bolsonaro foi condenado por dizer que ‘pintou um clima’ com adolescentes. O histórico familiar que o cerca só acentua o retrato: o tio da esposa, Michelle, foi preso por armazenar e divulgar pornografia infantil; a avó dela fora presa por tráfico de drogas; a mãe é investigada por estelionato; um tio, preso por homicídio e ligação com milícia; outro, por estupro de vulnerável.

Donald Trump, por sua vez, também é acusado de envolvimento com pedofilia — há fortes indícios de que seu nome figure nos arquivos de Jeffrey Epstein, notório traficante de menores, agente da CIA e do Mossad, morto em circunstâncias até hoje obscuras.
Recentemente, o governo Trump transferiu Ghislaine Maxwell, namorada de Epstein, para um presídio de baixa periculosidade. Um caso inédito, considerando que ela foi condenada a 20 anos por exploração sexual de menores. Maxwell é filha do magnata da imprensa inglesa Robert Maxwell, figura emblemática da extrema-direita internacional. Teria havido alguma vantagem em jogo?
A hipocrisia e a busca por interesses próprios são marcas registradas da extrema-direita. O lema “Deus, Pátria e Família” não passa de um slogan para ludibriar incautos.
A cautela, no entanto, há muito deixou o vocabulário da extrema-direita.
Incomodado com a reação do ex-presidente russo Dmitri Medvedev que rechaçou o ultimato exigindo cessar-fogo na Ucrânia, o ex-presidente norte-americano deslocou dois submarinos nucleares para a região.
Vê-se, assim, como um simples bate-boca pode se transformar em um holocausto nuclear, por mero capricho de um ditador.
Pior: esse teatro de horrores tem como pano de fundo um cenário internacional em que os vassalos dos EUA no Oriente Médio — o Estado de Israel, praticando terrorismo de Estado — cometem genocídio contra o povo palestino em Gaza.
Governo genocida de Benjamin Netanyahu
A comunidade internacional assiste quase inerte, enquanto continua exportando armas para o governo genocida de Benjamin Netanyahu e importando produtos israelenses. Mantêm-se as aparências à custa da morte por inanição dos gazauítas. A França, por exemplo, se autopromove ao lançar 40 toneladas de alimentos sobre Gaza, o equivalente à carga de dois caminhões. A ONU, no entanto, estima que seriam necessários centenas de caminhões por dia para aliviar minimamente a fome na região.
Nesse cenário distorcido, Volodimir Zelensky, pediu aos países ocidentais uma “mudança de regime” na Rússia.
O Ocidente silenciou. Por que estranharia? Não foi isso que os EUA fizeram ao longo da história da América Latina? Não seguiram o mesmo roteiro, na África, potências coloniais como França, Reino Unido, Bélgica, Itália e Alemanha? Por que haveria de causar surpresa?
Em Cruzar fronteiras: uma urgência para a ética teológica (Editora Santuário), Emilce Cuda propõe uma reflexão aguda sobre as fronteiras contemporâneas:
“O vocábulo ‘fronteira’, hoje, não se identifica com proteção, senão com impedimento, com ‘muro’: uma parede tanto física como legal… Levantam-se fronteiras sob a forma de barreiras de entrada econômica para que produtos industrializados não passem dos países periféricos para os países do centro. Levantam-se fronteiras sob a forma de barreiras migratórias — internas e externas — para imobilizar os corpos improdutivos.”
Se a extrema-direita as ergue para demarcar centros e periferias, os excluídos e excluídas as derrubam.
Um exemplo eloquente: na semana passada, participantes da Conferência Estadual de São Paulo pelos Direitos LGBTQIAPN+ expulsaram a deputada golpista Janaína Paschoal, aos gritos de “fascista” — o que, de fato, ela é.
Não se trata de algo menor. É simbólico: rompe-se a falsa divisão entre fascismo e gênero. O antifascismo só pode avançar pari passu com a tolerância, inclusive a sexual.
Separações artificiais
Sem demolir separações artificiais, não há luta antifascista. Vide Hungria, onde, mesmo com a marcha do orgulho LGBTQIAPN+ proibida pelo governo de extrema-direita, a população realizou uma das maiores mobilizações do tipo na história do país.
Sob o governo Trump, nos EUA, restabeleceu-se a tese de que “só o gênero biológico existe”.
A vontade ditatorial quer controlar tudo, como um falso deus, manipulando os corpos e os povos à sua imagem e semelhança.
Se o desemprego aumenta, ele demite a chefe do Departamento de Estatísticas, como fez recentemente.
Se as Bolsas despencam nos EUA, na Europa, no Japão e até no Brasil em resposta à imposição absurda de tarifas pelo “agente laranja”, o tombo é grande demais, visível demais, mesmo para um megalomaníaco tentar esconder.
Ao contrário dos muros, dos murros e das fronteiras, Ailton Krenak, em Um Rio, Um Pássaro (Editora Dantes), nos lembra:
“Devemos buscar e cultivar lugares de encontro entre as pessoas que se esforçam em fortalecer o bem viver.”
Mãos à obra.
Milton Rondó, é diplomata aposentado.
As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil