Nova tecnologia permite autonomia na produção, sem royalties, e abre caminho para imunizantes contra doenças endêmicas.
Por Redação, com Agenda do Poder – do Rio de Janeiro
O Brasil registrou recentemente a primeira patente de uma plataforma própria para vacinas de mRNA (RNA mensageiro), a mesma tecnologia utilizada na produção rápida de imunizantes contra a covid-19. Diferentemente das versões estrangeiras, a plataforma nacional possibilita ao país desenvolver vacinas com independência estratégica e escolher alvos de interesse local, sem precisar pagar royalties a outros países.

A iniciativa foi conduzida pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), da Fiocruz, que desde 2021 é centro de referência da Organização Mundial da Saúde (OMS) para desenvolvimento de vacinas de mRNA.
Ana Paula Dinis Ano Bom, gerente de desenvolvimento de Bio-Manguinhos, destaca a relevância da conquista: “Conseguimos criar uma plataforma totalmente brasileira e com uma abordagem original. Isso fortalece nossa soberania e nos dá independência estratégica.”
Plataformas de mRNA funcionam como veículos flexíveis capazes de transportar imunizantes contra vírus, bactérias, parasitas ou até tratamentos para câncer e doenças neurológicas como Parkinson e Alzheimer. A primeira plataforma brasileira começou com foco na Covid-19 e está em testes para um imunizante contra a leishmaniose, doença endêmica em áreas da Amazônia e em periferias do Rio de Janeiro.
Patrícia Neves, líder científica do projeto, explica que o diferencial da plataforma está no envoltório de lipídios que protege o mRNA. “Conseguimos construir uma estratégia totalmente nossa, o que nos permitiu obter uma patente. O tamanho e as características do envoltório são essenciais para garantir que o material genético chegue às células e ative a resposta imunológica.”
O mRNA funciona como mensageiro: leva a receita de uma proteína que será produzida pelo organismo, estimulando o sistema imunológico sem causar a doença. No caso da Covid-19, a proteína do coronavírus Sars-CoV-2 é suficiente para gerar proteção.
A plataforma já possui capacidade de produção industrial e um lote piloto está pronto. Caso os testes clínicos sejam aprovados pela Anvisa, as vacinas poderão ser produzidas em larga escala. Segundo Ana Paula, a vantagem do mRNA é a flexibilidade: “Uma vez tendo a plataforma, bastam dois ou três meses para adaptá-la a uma nova doença.”
Apesar do avanço tecnológico, o Brasil ainda enfrenta desafios logísticos, como a dependência de importação de reagentes e matéria-prima. Sem uma indústria de química fina suficientemente desenvolvida, a chegada de insumos pode levar meses.
Os próximos planos incluem o desenvolvimento de vacinas contra Covid-19, leishmaniose, influenza, zika, chikungunya, oropouche, vírus sincicial respiratório (VSR) e tuberculose. Herbert Guedes, vacinologista da UFRJ e pesquisador da Fiocruz, destaca a importância da plataforma para doenças endêmicas: “Se não fizermos, ninguém fará. Agora temos condições de desenvolver imunizantes rapidamente, de forma segura e eficiente.”
Vacinas preventivas
Além de vacinas preventivas, a plataforma também abre caminho para vacinas terapêuticas, que funcionam como imunoterapias, estimulando o sistema imunológico a combater doenças já instaladas, incluindo certos tipos de câncer. O princípio é sempre o mesmo: ensinar o organismo a produzir defesas eficazes e memória imunológica contra agentes específicos.
Segundo Guedes, a plataforma representa um marco para o Brasil: “Saímos do zero e criamos uma tecnologia própria em quatro anos. Agora podemos reinvestir royalties obtidos em novas pesquisas e expandir nosso alcance, tanto nacional quanto internacionalmente.”