Rio de Janeiro, 29 de Agosto de 2025

Por que Daniela Lima foi demitida da Globo?

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Quarta, 13 de Agosto de 2025 às 16:00, por: Rui Martins

Toda vez que um jornalista é demitido, vem logo a pergunta – foi por razão política? Estudante de jornalismo aspirando chegar a um dos grandes órgãos de informação da chamada mídia hegemônica, se não tiver muito jogo de cintura, pode viver essa situação.

Por Rui Martins, editor do Direto da Redação.
Por que Daniela Lima foi demitida da Globo? | Nem sempre se fica sabendo da razão exata da demissão de jornalistas.
Nem sempre se fica sabendo da razão exata da demissão de jornalistas.

Essa instabilidade é mais frequente quando a situação política do país vive um momento de transição, como aconteceu no Brasil com o Golpe de 1964. Neste caso, não havia garantia para jornalistas carimbado como janguista ou favorável às reformas de base de Goulart. Teria muita sorte se, como o hoje nonagenário e na ativa, Jânio de Freitas, trabalhasse nessa época na Última Hora do Samuel Wainer, jornal que, na linguagem de hoje, poderia ser definido como populista de esquerda.

Nos dias de hoje, com a polarização atual, pode haver demissão por questão de ordem econômica, por renovação da equipe ou mesmo demissão voluntária, provocada por suspeita de tendência política diferente do pensamento da família ou do grupo proprietário do órgão de informação, seja jornal, televisão, revista ou canal.

E aqui chegamos à nossa curiosidade – qual teria sido a razão da demissão da colega jornalista Daniela Lima, dois anos depois de ter sido contratada? O GloboNews explica com poucas palavras: a demissão ocorreu por conta do “movimento permanente de renovação do canal”. Fica uma pergunta: as renovações na GloboNews são feitas a cada dois anos?

Ou a demissão foi por outro motivo? Vale a pena observar a opinião de alguns colegas. Mas antes, é bom fazer uma rápida busca pela IA que, sem preocupação política, aceita a versão patronal de uma grande reformulação nos 30 anos do GloboNews e, indiscreta, fala num salário de 20 mil reais, pequeno se convertido para a moeda europeia, equivalente ao salário-mínimo suíço. Daniela era uma das âncoras do programa matinal Conexão Globo News.

Álvaro Borba, ex-Meteoro Brasil agora Arvro, dedicou, no seu canal YouTube, um vídeo à demissão de Daniela Lima, informando que a contratação da jornalista, há dois anos, tinha sido, segundo a GloboNews, para renovar seus quadros antes da comemoração dos 30 anos do programa, no próximo ano. Mas sua demissão dia 25 de agosto significa que ela não estará na festa.

Na nota que publicou, Daniela não deu nenhuma pista quanto ao seu desligamento – “depois de dois anos, deixo a GloboNews com a sensação de missão cumprida, cabeça erguida, sedenta pelos próximos desafios. Viva o novo”. Na linguagem do Linkedin, isso significa estar procurando emprego.

Daniela não foi a única fora da Globo, houve também Eliane Cantanhêde e Mauro Paulino. Como isso aumentou a curiosidade, a Globo soltou um comunicado: “Eliane Cantanhêde, Daniela Lima e Mauro Paulino não integram mais o time da GloboNews, que agradece a eles a valiosa parceria na apresentação e análise dos importantes acontecimentos”.

Arvro conta que a direita passou a ver na Daniela uma espécie de porta-voz da Suprema Corte, o STF, e mostrou a alegria do advogado Delton Dallagnol e da comemoração do canal Auriverde com a demissão da jornalista. Daniela logo passou a ser um alvo preferido dos bolsonaristas e o próprio Bolsonaro e, antes mesmo da demissão de Daniela, já havia se referido com chacota, ao ouvir um de seus comentários. Até Eduardo Bolsonaro comemorou no Texas a demissão de Daniela: “a família Marinho demitiu Daniela com medo de sofrer sanções pela Lei Magnitsky”. Dallagnol especulou sobre uma mudança da Globo com relação ao STF por pressão de Trump.

No canal Meteoro Brasil, Sophia La Banca fala da cota minimamente progressista na mídia hegemônica, citando Flávia Oliveira na GloboNews, Tiago Amparo, na Folha, Sakamoto no Uol, e lembra que a proximidade das eleições e a recuperação de Lula depois dos ataques do Trump parecem fazer com que essa cota de progressistas possa ser reduzida.

A observação parece procedente e pode ser tomada como um prenúncio de maus acontecimentos diante do chamado motim dos deputados e senadores bolsonaristas, que se sentem apoiados por Trump e representados nos EUA pelo deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro. Depois de terem atacado e saqueado a sede do Executivo, Legislativo e Judiciário, há dois anos, os líderes bolsonaristas queriam agora, com o motim, paralisar o Congresso para impor uma anistia e uma intervenção no STF, esperando receber apoio de Trump para provocar o Golpe? Felizmente Hugo Motta controlou o motim!

Especulações à parte, não se pode esquecer a primeira tentativa de golpe de Trump nos EUA para falsear as eleições de meio termo no Texas, com uma lei dividindo as atuais 38 circunscrições e permitindo ao Texas ter mais 5 deputados trumpistas no congresso em 2026. Diante dessa jogada política, os deputados democratas decidiram não dar quórum para a votação legal e fugiram para os Estados de Illinois e Nova York. Isso criou um clima de tensão e o governador trumpista do Texas promete cassar os mandatos dos democratas, já que não pode prendê-los, ameaça considerada legalmente impossível.

Esse clima de pré-instabilidade democrática favorecendo o fortalecimento do método Trump de governo já é levado a sério pela GloboNews, como dá a entender Eduardo Bolsonaro?

De acordo com o site Brasil 247, a demissão de Daniela Lima foi depois de uma pesquisa da Quaest, segundo a qual parte dos assinantes considerava parte da programação de esquerda. Daniela era o principal alvo da crítica como progressista, por sua postura em análises políticas e postagens nas redes sociais com críticas a ministros conservadores do STF. Não houve um comentário do 247 sobre os resultados da pesquisa do Quaest ou crítica da GloboNews em favor de Daniela.

O Diário do Centro do Mundo assinala a demissão de Daniela mesmo a Globo sabendo “que ela sofria ameaças e usava carro blindado”. Citando Fábia Oliveira, do canal Metrópoles, conta que a “vida de Daniela virou do avesso, nos últimos anos, por ser alvo constante de bolsonaristas, que comemoraram abertamente sua demissão”.

O DCM deixou a seguinte observação, endereçada aos jornalistas: “o episódio expõe uma crescente vulnerabilidade de comunicadores em um ambiente político radicalizado, em que vozes dissonantes, como a de Daniela Lima, viram alvos”.  (A versão sonora deste texto está no link https://youtu.be/gTF3V0FqnuY )

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

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