O extenso e cruel genocídio que vem sendo imposto, em proporções crescentes, por Israel ao povo de Gaza está, afinal.
Por Luiz Manfredin – de Brasília
O extenso e cruel genocídio que vem sendo imposto, em proporções crescentes, por Israel ao povo de Gaza está, afinal, gerando ações concretas de repúdio da parte da chamada comunidade internacional, sobretudo agora, quando Netanyahu anuncia a disposição israelense de apoderar-se do restante da faixa de Gaza e promover o deslocamento forçado, para o sul do território, de 1,1 milhão de palestinos. A política sionista pretende que essa população deixe a Palestina, por bem ou por mal.

A Europa, até pouco tempo reticente diante do massacre, restrita a declarações de repúdio ao genocídio, agora começa a mover-se. Países como França, Reino Unido, Bélgica, Noruega e Holanda anunciaram, para além das declarações de repúdio ao genocídio sionista, sanções contra autoridades israelenses. Proibição de viagens, congelamento de bens, proibição de ingresso nesses países, restrições diplomáticas, entre outras medidas, compõe o cardápio das reações estatais ao morticínio imposto aos palestinos de Gaza pelo terrorismo racista de Israel. A Eslovênia tornou-se o primeiro país europeu a proibir qualquer comércio de armas com Israel, medida que inclui o bloqueio de importações de produtos oriundos de territórios palestinos ocupados. A Alemanha, o segundo maior exportador de armas para Israel, seguiu pelo mesmo caminho.
O governo brasileiro, que desde o início condenou fortemente o genocídio sionista, agora dá um passo à frente. Em contundente pronunciamento, proferido nos últimos dias de julho em conferência na ONU, o chanceler brasileiro Mauro Vieira anunciou que o Brasil sancionará Israel com medidas que incluem a suspensão imediata de exportações brasileiras de equipamentos militares para Israel, o endurecimento da fiscalização de importações oriundas de assentamentos israelenses ilegais na Cisjordânia ocupada e o apoio formal do Brasil à denúncia de genocídio apresentada pela África do Sul perante Corte Internacional de Justiça (CIJ), em Haia.
Até mesmo na feira literária que se realizou, nos últimos dias, na cidade histórica de Parati, o tema veio à baila. Grande repercussão causou a postura do historiador israelense Ilan Pappe, que denunciou o genocídio sionista, afirmando que os palestinos vivem em “uma grande prisão” desde 1967, em referência ao bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza. E acrescentou dado estarrecedor: “Israel lançou mais bombas sobre a Faixa de Gaza desde 2007 do que os aliados lançaram sobre a Alemanha na Segunda Guerra”. Pappe, que vive no Reino Unido desde que foi demitido da Universidade de Haifa, em 2006, defendeu que apenas sanções econômicas internacionais, como as aplicadas à África do Sul durante o apartheid, poderiam conter o avanço das agressões israelenses. “Se o Ocidente fizesse 50% do que está fazendo com a Rússia (após a invasão da Ucrânia), criaria um grande problema para Israel”, afirmou.
Contra o apartheid
Na África do Sul, o regime racista e segregacionista do apartheid que vigorava desde 1948, começou a cair 1990, quando não suportou as severas sanções que lhe foram impostas pela comunidade internacional, sob orientação da ONU. O país foi isolado diplomaticamente e submetido a bloqueios econômicos, acadêmicos, culturais, esportivos e de fornecimento de armas. Desde 1974 o país estava excluído da Assembleia Geral da ONU e seus produtos boicotados mundo afora. Em 1990, o então presidente Frederic Le Klerk viu-se obrigado a libertar Nelson Mandela, preso há 27 anos, e iniciar um processo de transição.
Obviamente, a força do sionismo é muito poderosa no mundo atual e as circunstâncias internacionais situam Israel no centro de grandes interesses na luta pela hegemonia mundial e, portanto, em enorme vantagem em relação à África do Sul do apartheid. De todo modo, a chamada comunidade internacional não pode se manter hesitante em relação ao que se passa em Gaza. O bloqueio a Israel deve ser multilateral, de modo a enfraquecer sobretudo seu poderio militar, ampliar seu isolamento internacional e contribuir para aprofundar a oposição interna ao genocídio (que hoje ainda é débil), tornando os custos da guerra financeira e politicamente cada vez mais insustentáveis. Além disso, apoiar fortemente os palestinos na reconstrução de Gaza, para evitar que ela se torne um resort para desfrute de bilionários, uma espécie Riviera do Oriente Médio (com o deslocamento forçado da população local), como sonham Trump e os mais alucinados líderes do sionismo.
Embora, segundo pesquisa recente, 82% dos israelenses apoiem expulsar os palestinos de Gaza (47% querem matar cada homem, cada mulher e cada criança), na sociedade de Israel começam a surgir vozes contrárias ao genocídio, a começar pelo ex-primeiro-ministro Ehud Olmert, que declarou, em maio passado: “O que estamos fazendo em Gaza é uma guerra de extermínio: o assassinato indiscriminado, desenfreado, cruel e criminoso de civis”. E mais, sem rodeios: “Sim, estamos privando os residentes de Gaza de comida, remédios e meios mínimos de subsistência como parte de uma política declarada”. Olmert acusou o regime israelense de ser uma “quadrilha de criminosos”. O jornal israelense Yedioth Ahronoth publicou o manifesto de 341 acadêmicos israelenses, em que pedem o fim das atrocidades na Faixa de Gaza. Na mensagem, os intelectuais afirmaram que “não poderiam ficar de braços cruzados enquanto ações que levam a um desastre em escala global são realizadas em nosso nome”.
No mesmo tom, o ex-presidente do parlamento israelense (Knesset) Avraham Burg, para quem a destruição de Gaza revela a “falência moral” de Israel, acusou a administração do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de ser “um governo de criminosos”. Burg foi duro: “Eu me pergunto se Israel ainda merece sua existência”. Para ele, “um Estado que nega sistematicamente os direitos de milhões de pessoas, justifica o assassinato em massa como estratégia de segurança e eleva a supremacia judaica ao nível de ideologia não pode reivindicar legitimidade moral”.
Recentemente, um grupo de 600 comandantes da segurança israelense enviaram carta ao Donald Trump pedindo a ele que obrigasse Netanyahu a encerrar guerra em Gaza. Registrou o documento: “Parem a Guerra de Gaza! Em nome do maior grupo israelense de ex-generais das Forças de Defesa de Israel (IDF) e equivalentes do Mossad, Shin Bet, polícia e corpo diplomático, instamos você a pôr fim à guerra de Gaza. Você fez isso no Líbano. É hora de fazer isso também em Gaza”, defendeu o documento dirigido a Trumpv. Para seus signatários, isto permitiria a libertação do restante dos reféns do Hamas, que “não representa mais uma ameaça estratégica a Israel”.
Também recentemente, mais de mil rabinos de todo o mundo pediram que o governo israelense pare usar a fome como arma de guerra contra os palestinos de Gaza. Vê-se que a fúria sionista começa a ser devorada em seu próprio território. Alvíssaras!
A alma do sionismo
O que ocorre hoje em Gaza, este delírio de matança cruel, desumana e generalizada que já ceifou a vida de mais de 60 mil palestinos, em sua maioria mulheres e crianças, a tiro, fome ou doenças, não é apenas obra individual de um sociopata como Benjamin Netanyahu, que estraria prolongando a guerra apenas para evitar uma deposição humilhante e um processo por corrupção. É um pouco isso, mas o fato é que a selvageria expansionista não é algo estranho ao sionismo desde suas origens.
O jornalista Breno Altman, que é judeu, mas não sionista, afirma que o genocídio em Gaza “não é um desvio, mas o ápice de um projeto ideológico estruturado no supremacismo sionista, em que a desumanização do povo palestino é central”.
Liszt Vieira, ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro, segue no mesmo sentido. Ele cita uma declaração do Primeiro Ministro israelense, Ben Gurion, quando o Estado de Israel foi criado pela ONU em 1948. A uma pergunta de um jornalista sobre quais seriam os limites do território de Israel, Ben Gurion respondeu: “os limites do território de Israel serão determinados pela guerra”.
Sayd Marcos Tenorio, autor de “Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência”, registra que as fronteiras desejadas pelos sionistas para seu futuro estado incluíam o sul do Líbano, a atual Jordânia e o Sinai, com dominação judaica absoluto. Menciona um discurso de 1938 em que Ben Gurion afirma que, quando os sionistas se convertessem em uma força de peso, como resultado da criação de um estado judeu, aboliriam a partilha e expandir-se-iam para toda a Palestina, e que esse objetivo seria conquistado não através da pregação, mas sim por meio das armas. Poucos anos antes, segundo o mesmo autor, Joseph Weitz, chefe do Departamento de Colonização da Agência Judaica, responsável por organizar os assentamentos na Palestina, escreveu em seu livro “A solution to the refugee problem”, de 1940: ‘Nós não atingiremos nossos objetivos se os árabes permanecerem neste pequeno país [Palestina]. Não há outra maneira a não ser transferir os árabes daqui para os países vizinhos. Todos eles. Nem um vilarejo, nem uma tribo deve restar’”.
De massacre em massacre
A partir dos primeiros judeus estabelecidos na Palestina, ainda na virada dos séculos XIX e XX, o sionismo foi avançando sobre o território palestino, mesmo já tendo ocupado mais da metade dele com a criação do Estado de Israel, em 1948. E seguida a ocupação prosseguiu, de massacre em massacre, até chegar ao paroxismo do genocídio que vemos na atualidade. Segundo Ualid Rabat, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil, a compreensão do sionismo como uma ideologia de supremacia, é indispensável para se entender a atual crise humanitária, ou seja, que na ótica sionista, “é necessário judaizar integralmente a Palestina, geográfica e demograficamente, de modo a não haver nela nenhum palestino”. Uma espécie de Lebensraum, o espaço vital reivindicado por Hitler para estabelecer a hegemonia do “povo ariano”.
A Humanidade não pode permitir a avalanche de tal barbárie.
Luiz Manfredin, é jornalista a escritor paranaense, autor, entre outros livros, dos romances “As moças de Minas”, “Memória e Neblina” e “Retrato no entardecer de agosto”.i
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