Rio de Janeiro, 30 de Agosto de 2025

O que explode no mundo é o silêncio diante da guerra

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Terça, 17 de Junho de 2025 às 13:35, por: CdB

Em tempos de guerra e silêncio, escolher um lado não é ideologia, é humanidade.

Por Amarílis Costa – de São Paulo

Não foi apenas uma missão diplomática. Foi uma retirada. Foi pressa. Foi desvio. Foi fuga pela fronteira da Jordânia. Prefeitos brasileiros que estavam em Israel deixaram o território às pressas após o risco de um ataque iraniano. E o que poderia parecer apenas mais uma imagem de protocolo virou símbolo de algo maior: estamos todos no epicentro.

O que explode no mundo é o silêncio diante da guerra | Um depósito de petróleo em Shahran, no Irã, em chamas após ataque de Isarel
Um depósito de petróleo em Shahran, no Irã, em chamas após ataque de Isarel

Quando se foge de uma guerra, não se foge só de bombas. Foge-se da pergunta que nos assombra: o que estamos fazendo ali? E, mais ainda, o que estamos deixando de fazer aqui?

Da Faixa de Gaza ao Vale do Taquari, do Sudão ao Complexo da Maré, as sirenes já não anunciam emergência, elas anunciam permanência. A permanência do colapso. Da omissão. Do autoritarismo travestido de resposta. Da neutralidade que se fantasia de diplomacia.

Vivemos tempos em que os Estados se ajoelham diante do capital bélico, e a vida civil é tratada como custo colateral. Tempos em que a fome não é escândalo, mas estatística. Tempos em que o Brasil, país diverso, mestiço, repleto de florestas e favelas, se vê cada vez mais refém de agendas que não foram escritas por suas mãos, mas cujas consequências estão escancaradas em seus bairros.

A missão brasileira em Israel deveria acender debates, não apagar perguntas. Qual o sentido de enviar comitiva a um território em plena escalada militar? Qual o recado simbólico de estar ao lado de tanques e não de tendas humanitárias? E o mais grave: por que ninguém nos explicou nada?

Mas o silêncio também é política. E a ausência de debate público, neste caso, é conivência.

Quando os prefeitos voltarem, queremos saber: o que viram? O que sentiram? O que entenderam? Porque se voltarem apenas com lembrancinhas diplomáticas, terão perdido a única bagagem que importa: a consciência de que o mundo está em estado de emergência ética.

Brasil

E o Brasil, esse país de mil vozes e mil ausências, precisa decidir de que lado da história quer ficar. Se ao lado dos que fogem da guerra ou dos que constroem a paz. Se ao lado dos que empunham armas ou dos que carregam esperanças. Se ao lado dos que calam ou dos que gritam.

Que a retirada de agora não seja mais um capítulo apático. Que seja um aviso. Aviso de que o tempo da neutralidade acabou.

E que cada passo de volta dessa viagem traga não só relatos, mas compromissos. Porque por aqui, onde helicóptero também vira bomba, e onde criança aprende a diferença entre fogos e tiros, a paz precisa deixar de ser promessa. E passar a ser prática.

A paz que nos interessa não é a ausência de guerra. É a presença da justiça.

 

Amarílis Costa, é advogada, doutoranda em Direitos Humanos na Faculdade de Direito USP, mestra em Ciências Humanas, pesquisadora do GEPPIS-EACH-USP, diretora executiva da Rede Liberdade.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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