Rio de Janeiro, 30 de Agosto de 2025

Israel responde com diplomacia do porrete à proposta de dois Estados

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Domingo, 10 de Agosto de 2025 às 15:22, por: CdB

Uma onda notável de diplomacia no Oriente Médio entre as potências europeias, acelerou-se pela primeira vez em 19 de julho, com a publicação generalizada de fotos horríveis de crianças famintas.

Por Redação, com NYT e The Times: Michael D. Shear; Steven Erlanger e Roger Cohen  de Berlim, Londres, Nova York (NY-EUA) e Paris

 

Na manhã de 23 de julho, o chanceler Friedrich Merz da Alemanha e o presidente Emmanuel Macron da França se encontraram para discutir a crise de Gaza em uma mansão barroca de 112 anos com vista para o Lago Tegel, em Berlim.

Israel responde com diplomacia do porrete à proposta de dois Estados | Palestinos disputam pequenas porções de comida em Gaza, devastada pela guerra e pelo bloqueio israelense
Palestinos disputam pequenas porções de comida em Gaza, devastada pela guerra e pelo bloqueio israelense

Macron disse a Merz que estava sob imensa pressão interna e que provavelmente reconheceria um Estado palestino nas Nações Unidas no final de setembro, de acordo com duas autoridades familiarizadas com a discussão, que pediram anonimato para discutir conversas diplomáticas privadas.

Era um cronograma, respondeu Merz, que dava a todos espaço para considerar seu próximo passo. No dia seguinte, sem avisar os alemães, o Sr. Macron anunciou sua decisão publicamente, dizendo que o reconhecimento da Palestina mostrava o “compromisso da França com uma paz justa e duradoura”.

Foi parte de uma onda notável de diplomacia no Oriente Médio entre as potências europeias, que se acelerou pela primeira vez em 19 de julho, com a publicação generalizada de fotos horríveis de crianças famintas, e atingiu o pico 10 dias depois, com um anúncio semelhante sobre um Estado palestino feito pelo primeiro-ministro britânico Keir Starmer.

Em conjunto, tais medidas equivaleram a uma declaração de independência do governo Trump em uma importante questão estratégica que os europeus há muito tentam abordar em conjunto. Entrevistas com uma dúzia de autoridades e diplomatas revelaram uma busca frenética e, às vezes, descoordenada pela paz após anos de debate, impulsionada pela conclusão de que não podiam mais esperar que os Estados Unidos liderassem ou contivessem Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelense.

Arquitetos

Uma parte fundamental do esforço diplomático foi um plano de oito pontos desenvolvido discretamente por autoridades britânicas ao longo dos últimos seis meses e divulgado entre os europeus em 29 de julho por Jonathan Powell, conselheiro de segurança nacional de Starmer e mediador veterano. Powell foi um dos arquitetos do ‘Acordo da Sexta-Feira Santa’, que pôs fim a décadas de conflitos sangrentos na Irlanda do Norte, e tem atuado como consultor em diversos conflitos desde então.

Um dia após Powell começar a divulgar o plano britânico, 22 países árabes assinaram uma declaração que refletia seus principais objetivos em uma conferência das Nações Unidas coorganizada por Macron e os sauditas. A declaração, que refletia um esforço diplomático conjunto da França e da Arábia Saudita ao longo de vários meses, incluía pela primeira vez uma exigência da Liga Árabe para que o Hamas se desarmasse e renunciasse ao poder em Gaza.

Após meses de ações graduais, a intensificação diplomática da Europa refletiu a indignação global com a carnificina no enclave, mas também uma tentativa de apresentar a Israel uma demonstração transformadora da vontade das nações árabes, que poderia destravar as negociações de paz.

Autoridades familiarizadas com as deliberações nos três países disseram que a onda de atividades foi motivada por evidências de desnutrição e fome generalizadas em Gaza, crescentes demandas por ação por parte dos eleitores e a conclusão de que os Estados Unidos haviam abandonado seus esforços para pressionar pela paz ou restringir a ação militar israelense.

Oriente Médio

Não está claro se a diplomacia fará alguma diferença em campo. Desde que o Hamas matou cerca de 1,2 mil pessoas e fez outras 250 reféns em 7 de outubro de 2023, mais de 60 mil palestinos foram mortos na ofensiva israelense, segundo autoridades de saúde de Gaza, que não fazem distinção entre civis e combatentes. Mas um conselheiro sênior de Macron para o Oriente Médio, que pediu para não ser identificado para discutir diplomacia privada, foi direto:

— Tínhamos que agir.

Na quinta-feira, Netanyahu rejeitou efetivamente os apelos europeus por paz quando seu gabinete de segurança aprovou a expansão da guerra em Gaza. Sua decisão de intensificar a guerra levou até mesmo Merz, um forte apoiador de Israel, a suspender qualquer remessa de armas alemãs que pudesse ser usada em Gaza.

‘Esperando para Morrer’

Era meados de julho quando Starmer, seu secretário de Relações Exteriores, David Lammy, e seus assessores perceberam que seu longo debate sobre o reconhecimento de um Estado palestino havia chegado a um ponto crítico. Durante meses, eles insistiram que não era o momento certo.

No ano desde que o Partido Trabalhista assumiu o poder, denunciaram o bombardeio israelense em Gaza, impuseram sanções a dois ministros israelenses de extrema direita e exigiram que mais ajuda fosse autorizada a entrar no território. Mas, ainda em 16 de julho, Lammy sustentou aos legisladores trabalhistas frustrados que reconhecer a Palestina não era o mesmo que estabelecer um Estado viável para os palestinos ao lado de Israel.

— Na verdade, eu quero ver dois Estados — disse Lammy, que viajou duas vezes à Cisjordânia ocupada antes de se tornar secretário de Relações Exteriores, durante uma audiência do comitê. Mas ele sugeriu que reconhecer a Palestina naquele momento seria mais “uma coisa simbólica”.

Mas o cálculo mudou rapidamente. Em 18 de julho, Israel anunciou uma expansão dos assentamentos na Cisjordânia ocupada, uma medida que o governo britânico denunciou como uma “violação flagrante do direito internacional” que minaria gravemente qualquer chance de uma paz entre dois Estados.

Crianças

No dia seguinte, a mídia ao redor do mundo publicou fotos de crianças famintas em Gaza, com os ossos saindo dos corpos emaciados. Foi um golpe duplo, segundo dois altos funcionários britânicos. A situação no terreno estava se deteriorando rapidamente. A pressão pública sobre Starmer estava crescendo. Em 23 de julho, Sarah Champion, uma parlamentar trabalhista, recebeu um telefonema de uma amiga em Gaza que estava com dificuldades para encontrar comida.

— Minha família e meus amigos estão esperando a morte agora — disse ela à amiga.

Na manhã seguinte, Champion enviou mensagens de WhatsApp e e-mails para seus colegas, pedindo que assinassem uma carta pedindo ao primeiro-ministro que reconhecesse a Palestina. No final, mais de 255 assinaram.

Reconhecimento

O anúncio de Macron ocorreu em 24 de julho. “A paz é possível”, escreveu ele nas redes sociais, compartilhando uma carta para Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina. Sua linguagem refletiu a pressão que ele sentia para agir rapidamente:

— É urgente implementar a única solução viável para satisfazer as aspirações legítimas do povo palestino.

Macron vinha sinalizando há semanas que queria fazer o anúncio, mas às vezes parecia hesitante. Uma autoridade britânica disse que o Reino Unido havia discutido um reconhecimento conjunto da Palestina, mas Macron fez o anúncio sem informá-los.

Após quase dois anos de guerra, diplomatas franceses estavam frustrados com a recusa de Israel em conter sua ação militar ou em planejar a estabilização de Gaza no pós-guerra. Macron havia perdido a paciência com o presidente Trump, que parecia não mais apoiar uma solução de dois Estados e não demonstrava interesse em pressionar Netanyahu. O presidente francês queria impulso na busca pela paz, em parte para apoiar Estados árabes moderados que também querem progredir na direção de um Estado palestino.

Sendo a França a única potência nuclear na União Europeia, membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e lar das maiores comunidades judaica e muçulmana da Europa Ocidental, Macron sabia que o reconhecimento da Palestina repercutiria em muitas outras nações.

— A França tinha basicamente uma carta para jogar: Reconhecimento de um Estado palestino — disse Rym Momtaz, especialista em política externa francesa do Carnegie Endowment for International Peace.

Fome de verdade

Dada sua história nazista e o status como um dos aliados mais importantes de Israel, a Alemanha sempre teve pouca probabilidade de reconhecer um Estado palestino antes de sua criação. Mas o premiê Merz estava determinado a participar dos esforços diplomáticos. Um dia após o anúncio de Macron, o chanceler alemão, o presidente francês e Starmer emitiram uma declaração conjunta pedindo o fim da guerra, a libertação dos reféns, o desarmamento do Hamas, um enorme influxo de ajuda e a interrupção de quaisquer planos israelenses de anexar mais território.

O trio conversou por telefone na manhã seguinte. Concordaram que a situação era “terrível”, segundo um resumo britânico da reunião. A comida chegava a Gaza aos poucos, mas não com a rapidez necessária. Não havia perspectiva de cessar-fogo.

As três nações – conhecidas como E3 – têm mais influência quando estão alinhadas. Sua unidade também lhes dá cobertura política interna. Portanto, a Alemanha não criticou nem a França nem o Reino Unido por suas decisões de reconhecer um Estado palestino, em parte, disse uma alta autoridade alemã, porque precisa da unidade do E3 para ajudar a lidar com suas próprias críticas internas a Gaza.

Frustrado

No domingo, 27 de julho, Merz falou diretamente com Netanyahu. O chanceler saiu da ligação frustrado, de acordo com uma pessoa familiarizada com a conversa, que falou anonimamente dada a sensibilidade do assunto, depois que o primeiro-ministro israelense insistiu durante a ligação que não havia fome em Gaza e que o Hamas estava roubando a farta comida que estava sendo entregue. No dia seguinte, Merz e Macron compareceram a uma reunião entre Trump e Starmer, na Escócia. Os europeus instaram Trump a pressionar Netanyahu a permitir a entrada de mais ajuda em Gaza, de acordo com uma autoridade que falou sob condição de anonimato, dada a sensibilidade do assunto.

Após a reunião, Trump reconheceu a situação grave.

— Isso é uma verdadeira questão de fome, eu vejo, e não dá para fingir. Temos que alimentar as crianças — disse Trump aos repórteres .

Conferência

No dia seguinte à saída de Trump da Grã-Bretanha, Starmer oficializou a decisão. Ele reconheceria a Palestina, a menos que Israel agisse rapidamente para pôr fim à guerra e trilhar um caminho rumo a uma paz permanente. Lammy repetiu o que seu chefe disse em um discurso nas Nações Unidas.

— É com a mão da história sobre nossos ombros que o Governo de Sua Majestade pretende, portanto, reconhecer o Estado da Palestina — disse ele. Foi aplaudido de pé. O Canadá juntou-se à Grã-Bretanha e à França, logo depois.

O anúncio de Starmer surpreendeu os alemães. Eles já viam o anúncio de Macron como contraproducente, endurecendo o tom de Israel e a posição do Hamas nas negociações de cessar-fogo no Catar, que haviam fracassado. Naquele mesmo dia, Powell começou a compartilhar rascunhos do plano britânico com os aliados, na esperança de aproveitar o momento em que a crescente indignação global era recebida com novos exemplos de vontade política. Powell e outros membros do governo britânico vinham trabalhando no plano há meses e lutavam para que os líderes árabes o assinassem. Agora, juntamente com a França e a Alemanha, tentavam novamente.

Cessar-fogo

Não estava claro para os diplomatas se Trump apoiaria o plano, que incorporava algumas das mesmas ideias que autoridades de capitais estrangeiras haviam proposto no passado, sem sucesso. De acordo com duas autoridades europeias, o documento exigia um governo palestino tecnocrático para Gaza, vinculado a uma Autoridade Palestina reformada; uma força de segurança internacional; uma retirada total de Israel; monitoramento do cessar-fogo liderado pelos EUA; e – por fim – dois Estados independentes.

O plano britânico também apresentou um “anexo de implementação” com um cronograma que incluía a conferência da ONU previamente agendada, patrocinada pela França e pela Arábia Saudita, com o objetivo de reavivar os esforços em direção a uma solução de dois Estados. O plano previa compromissos árabes na conferência e um eventual cessar-fogo em Gaza, culminando em um plano de paz para dois Estados, liderado pela Arábia Saudita e pela França, na Assembleia Geral da ONU em setembro.

O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, disse há muito tempo que queria normalizar as relações com Israel, mas insistiu que a guerra com Gaza precisava ser resolvida primeiro e que havia progresso concreto em direção a um Estado palestino.

Diplomacia

Apesar de várias perguntas, autoridades francesas disseram não conseguir determinar se os Estados Unidos ainda apoiavam uma paz entre dois Estados, entre israelenses e palestinos. O Secretário de Estado Marco Rubio reagiu com fúria à ideia da conferência, chamando-a de “inoportuna” e “um golpe publicitário”. Os europeus avançaram com firmeza, apesar das críticas. Starmer telefonou para vários líderes árabes, buscando apoio ao roteiro delineado no documento de Powell, incluindo o desarmamento do Hamas e a criação de uma potencial força liderada pela ONU para manter a paz após o fim da guerra. Macron e Merz tiveram discussões semelhantes.

A declaração final da conferência surpreendeu muitos veteranos da diplomacia do Oriente Médio. “O Hamas deve pôr fim ao seu domínio em Gaza e entregar suas armas à Autoridade Palestina, com engajamento e apoio internacional”, dizia o documento , a primeira vez que tal apelo foi feito coletivamente por todas as nações árabes. A declaração também acolheu a ideia de “uma missão internacional temporária de estabilização” em Gaza, que operaria sob a direção das Nações Unidas.

Em outra época, sob um governo israelense diferente, a declaração poderia ter sido adotada por Israel como uma saída para quase dois anos de guerra brutal. Também pode ter sido um momento para os Estados Unidos afirmarem sua influência como aliado mais próximo de Israel e garantidor histórico de sua segurança. Mas Trump demonstrou pouco interesse em pressionar Netanyahu a conter seu exército ou a encerrar a guerra. O presidente não se opôs publicamente à decisão israelense de tomar a Cidade de Gaza. Em vez disso, Israel e os Estados Unidos rejeitaram a declaração da ONU.

Conflito

Diplomatas na Grã-Bretanha, França e Alemanha, muitos dos quais trabalharam durante anos pela paz entre Israel e os palestinos, expressaram frustração com a falta de engajamento de Trump, talvez a única pessoa no mundo com a capacidade de pressionar o primeiro-ministro israelense a mudar de rumo.

Eles reconheceram que as ações de Netanyahu nos últimos dias são uma evidência de que o poder norte-americano é necessário para fazer uma diferença real no conflito. Ainda assim, vários disseram que, embora soubessem que Netanyahu provavelmente rejeitaria a ideia, precisavam tentar.

A alternativa, disseram, era simplesmente desistir, uma escolha que poucos estavam dispostos a fazer.

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Aurelien Breeden e Ségolène Le Stradic contribuíram com reportagens de Paris.

Michael D. Shear é um correspondente sênior do Times que cobre política e cultura britânicas; além de diplomacia ao redor do mundo.

Steven Erlanger é o principal correspondente diplomático na Europa e está baseado em Berlim. Ele já fez reportagens em mais de 120 países, incluindo Tailândia, França, Israel, Alemanha e a antiga União Soviética.

Roger Cohen é o chefe da redação do The Timesem Paris, cobrindo a França e outros países. Ele cobriu as guerras no Líbano, na Bósnia e na Ucrânia, e entre Israel e Gaza, em mais de quatro décadas como jornalista. No The Times, foi correspondente, editor internacional e colunista.

Tradução: Correio do Brasil
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