A guerra contra a Ucrânia não autoriza Vladimir Putin a cometer os crimes de guerra que vem cometendo, país que quer manter vínculos com o ocidente capitalista ao invés de aliar-se ao bloco russo/indiano/chinês igualmente capitalista.
A guerra da Ucrânia é muito mais monetária do que militar, mesmo sendo os seres humanos as vítimas mais diretas e imediatas da crueldade desta ordem mundial capitalista que tem nos padrões monetários nacionais, as moedas, o mecanismo sofisticado de segregação social.
Por Dalton Rosado
Nada autoriza Vladimir Putin a cometer crimes de guerra.
Desde que as moedas mundiais passaram a ser meramente fiduciárias, sem lastro em ouro, sua aceitação ficou dependendo apenas da credibilidade dos países emissores; previsivelmente, as economias dominantes foram as grandes beneficiárias deste mecanismo, por força do seu poderio econômico.
A partir do Acordo de Bretton Woods, em 1944, o dólar estadunidense foi estabelecido como moeda internacional, o que provocou uma guinada pró-Estados Unidos na economia mundial.
A Europa tinha sido destroçada pela 2ª Guerra Mundial; a Ásia, enfraquecida pela derrota do Japão e pela luta interna (estava em curso a revolução maoísta); a Rússia, deixada em ruínas pelos nazistas, lamentando algo entre 20 e 27 milhões de mortos. Daí os Estados Unidos, que saíram com sua infraestrutura de produção ilesa e credores do espólio dos derrotados, terem passado a dar as cartas.
Tal situação melhorou substancialmente em 1971, quando foi estabelecida a dispensa da conversibilidade da moeda em ouro, dando aos EUA sinal verde para produzirem moeda sem lastro e exportá-la para as negociações mundiais sob tal parâmetro monetário dolarizado.
Sem produzir inflação interna pela emissão desenfreada de USD, os Estados Unidos podiam tudo comprar do mundo sem ter correspondência de lastro comercial entre importações e exportações.
Isto, em grande parte, explica a pujança econômica dos EUA, que se tornaram a meca do capitalismo mundial.
Para se ter uma ideia monetária do que representa para o Tio Sam a possibilidade de cobrir o déficit comercial anual com dólar sem lastro e continuar comprando com a mesma capacidade sem que isto abale a sua economia interna, basta dizermos que em 2020 houve um saldo negativo de US$ 676,7 bilhões, que em 2021 cresceu para US$ 859,1 bilhões. Isto é a metade de todo o PIB brasileiro!!!
Os Estados Unidos passaram a ser vistos como exemplo de prosperidade capitalista virtuosa a ser seguido (tanto pelos incautos analistas leigos, quanto por interesseiros letrados em economia). Adquiriu ares de verdade absoluta esta falácia: "Como o capitalismo é bom! Vejam os Estados Unidos e sua economia liberal de mercado!".
Agora os ventos não mais sopram a favor dos EUA, e tudo por conta das contradições intrínsecas do próprio capitalismo, que tornaram irresolúvel a equação da tentativa de prosperidade permanente, bem a como a de prosperidade mundial linear.
Aí a China fez valer os seus trunfos:
— a produção de mercadorias a preços inferiores, graças ao baixo valor do trabalho abstrato escravo abundante (trouxe grande parte da população rural de mais de 1 bilhão para as áreas industriais urbanas);
— a mecanização da produção tecnológica, computadorizada e eletrônica;
— a aceitação sem restrições por parte do capital industrial e comercial internacional, ávido por expansão; e
— o endividamento gigantesco, suficiente para formar um parque industrial do seu tamanho (territorial e populacional);
Com isto conquistou grande parte do mercado mundial, a ponto de os Estados Unidos serem forçados a transgredir os fundamentos do seu apregoado liberalismo de mercado, com a adoção de medidas protecionistas à sua produção e consumo interno.
Ao ver as suas indústrias migrarem para as regiões mais pobres do mundo em busca de mão-de-obra barata (trabalho abstrato produtor de mais-valia) como forma de sobrevivência econômica na guerra concorrencial mundial de mercado, os EUA viram sua economia entrar em depressão e ter de criar bolhas financeiras surreais.
Exemplo marcante do desemprego do dinheiro e de sua vital necessidade de reprodução aumentada sem a qual ele fenece, temos na bolha imobiliária do sub-prime de 2008, que estourou por falta de consistência de tal mecanismo, abalando todo o sistema bancário mundial (o qual acabou sendo salvo pela emissão de moedas sem lastro pelos Bancos Centrais euro/estadunidenses).
Tratou-se, contudo, de um remédio paliativo de curto prazo, cujas consequências ora se evidenciam desastrosas, graças à perda de credibilidade de suas moedas por estarem dissociadas de valor intrínseco advindo da produção de mercadorias, única fonte de valor válido sob o critério monetário capitalista.
Criptomoedas são especulativas e levam ao mesmo desfecho
As criptomoedas e as suas alardeadas valorizações, as quais nada mais são do que meramente especulativas, também caminham para o mesmo desfecho e de uma forma ridiculamente aceitas como válidas.
Como dizia um samba antigo, "está provado, porque neste mundo tem bobo pra tudo".
A falta de consistência da moeda estadunidense foi amiúde denunciada por nós aqui neste blog, quase que solitariamente. Agora o tema obtém destaque no noticiário internacional em razão das escaramuças da Rússia e da índia na defesa de uma moeda continental que promova a junção da rúpia com o rublo, e que viabilize suas relações comerciais (capitalistas, não se esqueçam).
Diante de tal perspectiva, não tardou para que Washington manifestasse seu temor e fizesse as ameaças próprias a quem se considera (mas é, facciosamente) polícia do mundo.
A Casa Branca assim se posicionou:
"O que não queremos é uma rápida aceleração das importações indianas da Rússia em termos de recursos energéticos ou outras exportações atualmente proibidas pelos EUA. Não criem mecanismos que apoiem o rublo e tentem minar o sistema financeiro baseado no dólar americano, pois haverá consequências para os países que tentarem ativamente contornar as sanções impostas à Rússia".
Por sua vez, Daleep Singh, vice-conselheiro de Segurança Nacional da Presidência dos Estados Unidos (incumbido das questões de economia global) disse que a visita à Índia se dá"num espírito de amizade para explicar a mecânica de nossas sanções".
Desapontado, Biden chamou de "trêmula" a posição da Índia sobre as sanções contra a Rússia, em contraste com os demais aliados dos EUA na Europa e na Ásia. A pressão de Washington foi secundada pela ida, no mesmo dia, da ministra das Relações Exteriores inglesa, Liss Truss, à Índia.
A diplomacia da Rússia qualificou de "chantagem" as ameaças dos EUA:
"A parceria [Rússia-Índia] não depende de considerações conjunturais. Mais ainda, não depende de métodos ilegais de diktats e chantagem. Usar tais práticas contra países como a Rússia, Índia, China, é fútil e apenas significa que essas pessoas que promovem, propõem e impõem tal visão sobre todos mais, não entendem completamente a natureza da identidade nacional desses países, com os quais eles tentam se comunicar usando a linguagem da chantagem e dos ultimatos".
O sistema de intercâmbio rublos-rúpias pretende usar o sistema de pagamentos russo SPFS, com ambos os lados abrindo contas em rublos e rúpias, e com a referência para a taxa de conversão em processo de definição.
Em resposta a Washington, a ministra indiana das Finanças, Nirmala Sitharaman, confirmou que o país começou a comprar petróleo russo.
"Ponho nossa segurança energética e os interesses do meu país em primeiro lugar. Se o fornecimento está disponível com um desconto, por que não comprá-lo?".
O mesmo procedimento está sendo usado pela Rússia para a venda de mercadorias para a União Europeia, ou seja, exigindo o pagamento em rublos, como forma de fortalecimento de sua moeda.
Por sua vez a China, que vende suas mercadorias para o mundo em dólar e tem dependência econômica e financeira desta moeda internacional, fica neste conflito de interesses mesquinhos com um pé lá e outro cá, ainda que o coração chinês bata mais forte por aproveitar-se da decomposição orgânica do dólar e do euro para firmar o seu iene como moeda fiduciária de aceitação global e, assim, impor com mais força sua pretendida hegemonia econômica capitalista.
Nada disto, entretanto, autoriza Vladimir Putin a cometer os crimes de guerra que vem cometendo contra a Ucrânia, país que quer manter vínculos com o ocidente capitalista ao invés de aliar-se ao bloco russo/indiano/chinês igualmente capitalista.
A guerra da Ucrânia é muito mais monetária do que militar, mesmo sendo os seres humanos as vítimas mais diretas e imediatas da crueldade desta ordem mundial capitalista que tem nos padrões monetários nacionais, as moedas, o mecanismo sofisticado de segregação social.
Tal mecanismo, neste momento de depressão econômica mundial, já nem mesmo corresponde à representação fidedigna do valor, tais como foram concebidas nos primórdios.
A humanidade não pode ser dirigida por tais interesses desumanos, numericamente abstratos pelo valor de troca, mas tornados reais sob a forma de valor de uso pelo consumo (as mercadorias). Eles são:
— ecologicamente predadores da natureza;
— artificialmente manipulados;
— sociologicamente conceituados como classistas e segregacionistas;
— violentamente belicistas; e
— reificados ditatorialmente como coisas que dão ordens ao nosso agir e pensar.
O humanismo que conservamos no recôndito das nossas consciências tem de brotar revolucionariamente como as flores na primavera, anunciando o bem e a virtude em contraposição a todos os tipos de maldades estruturais e seus interesses mesquinhos!
Por Dalton Rosado, advogado, colaborador do Náufrago da Utopia, onde o texto foi originalmente publicado.
Direto da Redação é um fórum de debates publicado no Correio do Brasil pelo jornalista Rui Martins.