Rio de Janeiro, 29 de Agosto de 2025

A dificuldade em ser mãe pobre numa sociedade patriarcal e excludente

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Sexta, 29 de Agosto de 2025 às 11:56, por: CdB

Filme de Anna Muylaert acompanha mãe negra que foge da violência doméstica e enfrenta racismo, trabalho invisível e crise de moradia, expondo engrenagens do patriarcado.

Por Marcos Aurélio Ruy – de São Paulo

O filme A Melhor Mãe do Mundo (2025), de Anna Muylaert, expõe na telona a dureza da vida das mulheres sob o capital predatório. Mas principalmente para as mães pobres, no caso negras, na lida para superar a opressão capitalista com toda a sua discriminação, haja vista a dificuldade de muitas mães encontrarem uma vaga no mercado de trabalho, e o machismo estrutural da sociedade patriarcal num dos países mais violentos contra as mulheres, o Brasil. Que vergonha!

A dificuldade em ser mãe pobre numa sociedade patriarcal e excludente | Cena do filme “A Melhor Mãe do Mundo”, de Anna Muylaert
Cena do filme “A Melhor Mãe do Mundo”, de Anna Muylaert

Autora de outras duas obras que também retratam a figura da mãe num contexto de imposição às mulheres uma forma de como cuidar das pessoas e o trabalho doméstico sem remuneração. Que Horas Ela Volta? (2015) e Mãe Só Há Uma (2016), Anna dramatiza a vida de mulheres sob o ponto de vista delas e de suas crias.

Inevitável lembrar de Até a Última Gota (2025), de Tyler Perry, e da minissérie Maid (2021), de Molly Smith Metzer, que expõem, gota a gota, a violência da sociedade contemporânea contra as mulheres. Personagens fortes que marcam a cinematografia provam que o real resiste, como diria Arnaldo Antunes, apesar de tanta tecnologia.

Gal (Shirley Cruz), uma catadora de resíduos, com o casal de filhos, Rihanna (Rihanna Barbosa) e Benin (Benin Ayo), foge do marido violento e abusador, Leandro (seu Jorge), um segurança de empresa.

Ela atravessa São Paulo com sua carroça de recicláveis e cria um ambiente de fantasia para as crianças não sentirem o drama da fuga do companheiro abusador. Mas como o perigo está tanto dentro de casa, quanto na rua, Gal, conhecendo os meandros dos perigos, protege a filha e o filho com as asas que toda boa mãe abre para abrigar os filhos, até chegarem à casa de uma prima. (Veja trailer abaixo):

O perigo volta a rondar quando Leandro reaparece convidado pelo marido da prima. O churrasco corre solto e o casal parece se “acertar”. Mas não. Gal percebe a impossibilidade de reatar quando Leandro diz que Rihanna não é mais criança: “Já cresce peitinho”. Enfrentar o perigo e cair fora do relacionamento abusivo é a única solução.

Solidariedade

A solidariedade aparece numa ocupação porque o problema de moradia é candente em São Paulo, onde existem milhares de pessoas em situação de rua e favelas e moradias precárias. As ocupações em prédios abandonados servem de solução para se ter onde morar e também de abrigo para mulheres em situação de vulnerabilidade. Ali Gal encontra o seu canto.

E para provar a impossibilidade de se humanizar o capitalismo A Melhor Mãe do Mundo vai além e nos remete ao livro Sobre a Questão da Moradia, de Friedrich Engels, publicado no século 19. Ele mostra que “já existem conjuntos habitacionais suficientes nas metrópoles para remediar de imediato, por meio de sua utilização racional, toda a real escassez de moradia”. Isso deixa claro que o problema da moradia é de distribuição.

Mas vai além ainda quando os problemas vividos por Gal ultrapassam misturam as questões sociais e individuais, até quando um “amigo” oferece ajuda, mas quer algo em troca. Algo que ela não quer dar. Assim é este mundo no qual não vale uma gota a vida de quem só tem para vender a sua força de trabalho.

 

Marcos Aurélio Ruy, é jornalista.

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