Rio de Janeiro, 29 de Agosto de 2025

A atualidade do Manifesto Comunista: Reflexões para o século XXI

Arquivado em:
Segunda, 04 de Agosto de 2025 às 13:40, por: CdB

A análise marxista segue atual porque revela o núcleo das contradições sociais: a exploração da força de trabalho e a concentração de riquezas.

Por Leandro do Erre – de Brasília

Muito se fala hoje em fim das ideologias, superação dos conflitos sociais e neutralidade política. Mas, quando revisitamos o Manifesto Comunista, lançado há mais de 175 anos, a pergunta inevitável é: ainda há pertinência em sua leitura? Ele continua válido como ferramenta de análise e ação política?

A atualidade do Manifesto Comunista: Reflexões para o século XXI | Marx e Engels, em 1848 (pintura de autor não identificado)
Marx e Engels, em 1848 (pintura de autor não identificado)

A resposta exige uma incursão teórica que vá além da superfície. O Manifesto começa com a afirmação de que toda história da sociedade é a história da luta de classes. Essa frase, alvo de críticas e ataques há décadas, contrapõe-se diretamente à narrativa hegemônica de um mundo pós-ideológico. E no entanto, quando observamos a realidade contemporânea, suas contradições estruturais seguem evidentes.

A origem do texto e a Europa de 1848

Marx e Engels escreveram o Manifesto em meio às convulsões da Primavera dos Povos, um período de revoluções e profundas transformações sociais. O pano de fundo: a Revolução Industrial, que redesenhou o tecido social europeu, concentrando trabalhadores nas cidades e radicalizando a exploração da força de trabalho. Era o embrião da oposição entre burguesia — que detinha os meios de produção — e proletariado — que vendia sua força de trabalho para sobreviver.

O método de análise: materialismo histórico em ação

O Manifesto é uma demonstração clara de aplicação do método do materialismo histórico, que busca compreender as estruturas profundas da sociedade por meio da análise das relações de produção e da luta entre classes. A sociedade burguesa, segundo Marx e Engels, não aboliu essas oposições; ao contrário, reduziu-as a dois grandes campos inimigos: burguesia e proletariado, polos que seguem em permanente enfrentamento.

Um dos aspectos mais notáveis é a afirmação de que “a grande indústria estabeleceu o mercado mundial”, antecipando com impressionante precisão o fenômeno da globalização. O que hoje chamamos de mundialização e descentralização produtiva já era objeto de estudo, denunciado como um mecanismo estruturante do capitalismo.

A burguesia como agente de revolução permanente

A análise marxista reconhece que a burguesia desempenhou um papel historicamente revolucionário. Seu surgimento se deu através de sucessivos rompimentos com modos de produção anteriores, gerando uma profunda reorganização da sociedade em nome do capital.

Importante destacar que a afirmação contida no manifesto de que a burguesia não sobrevive sem transformar continuamente os instrumentos de produção se provou no tempo — da máquina a vapor à inteligência artificial. Foram necessárias várias revoluções industriais para que essa lógica se consolidasse. A primeira se concentrou na força de trabalho; a segunda aprofundou os processos industriais; a terceira digitalizou a produção, e a quarta — a que vivemos — robotiza e automatiza a força produtiva, marginalizando crescentemente o trabalho humano.

Onde antes centenas de pessoas eram necessárias para a agricultura, hoje uma única máquina e seu operador realizam o trabalho de um dia. O desenvolvimento das forças produtivas impõe mudanças constantes, sem romper, porém, com a estrutura exploratória que define o modo de produção capitalista. A produção é socialmente construída, mas a riqueza por ela gerada é apropriada por uma minoria.

Globalização e dominação cosmopolita

Essa revolução permanente da produção também se estende à esfera global. A exploração do mercado mundial moldou o consumo e a produção em escala internacional. Produtos de diferentes climas e países passaram a ser exigidos para atender necessidades construídas por essa nova lógica.

Desde os tempos das caravelas até os algoritmos contemporâneos, o capitalismo impõe sua imagem ao mundo. A globalização, longe de ser uma novidade, é apenas mais uma etapa da expansão burguesa. A diferença está nos instrumentos: hoje mais velozes, eficientes e invisíveis — mas, ainda guiados pela mesma lógica de dominação.

As relações burguesas de produção, formadas dentro da antiga sociedade feudal, tornaram-se tão poderosas que escapam ao controle de seus criadores, como um feiticeiro que perdeu o domínio das forças que invocou. Marx e Engels afirmam que essas próprias contradições geram as condições para a superação da ordem burguesa, e o agente dessa transformação é a classe trabalhadora.

Permanência da luta de classes

Mesmo com mudanças estéticas e tecnológicas, a lógica permanece inalterada. A análise marxista segue atual porque revela o núcleo das contradições sociais: a exploração da força de trabalho e a concentração de riquezas.

Basta observar o modelo dos aplicativos: motoristas que, apesar de se considerarem autônomos, dependem integralmente de plataformas que intermedeiam o serviço sem oferecer garantias mínimas. A grande tecnologia — um aplicativo — mantém a mesma relação fundamental: exploradores e explorados.

As pautas do Manifesto no século XXI

As propostas centrais do Manifesto permanecem urgentes: educação pública (acrescentando “de qualidade”), imposto progressivo (taxação dos super-ricos), expropriação da propriedade privada e centralização do crédito no Estado. Ainda convivemos com um sistema que destrói o meio ambiente, precariza o trabalho e marginaliza milhões sob promessas ilusórias de meritocracia.

Conclusão: Uma teoria viva para transformar o mundo

O Manifesto Comunista, portanto, permanece como um farol crítico para nossa época. Sua leitura — ou releitura — revela a força duradoura das ideias marxistas, não por suas formulações específicas de 1848, mas por seu método vivo de análise: um instrumento capaz de decifrar as contradições fundamentais que continuam moldando a sociedade contemporânea.

Ao mostrar como a burguesia transformou a sociedade a partir da superação das estruturas feudais, o Manifesto oferece uma chave para compreender que, historicamente, a classe trabalhadora, e explorados em geral, também pode — e deve — provocar mudanças semelhantes. Não como profecia, mas como análise científica das tendências históricas que emergem da realidade concreta e das contradições internas do sistema capitalista.

A luta de classes continua sendo o motor da história, assumindo formas novas, mas preservando sua essência transformadora. A construção de uma sociedade emancipada exige organização consciente nos sindicatos, nos territórios, nas redes, nas comunidades e nos movimentos sociais.

Mais do que nunca, é hora de somar forças. A luta é de todas as cores, corpos e vozes. Trabalhadores e excluídos: uni-vos!

Assista ao vídeo abaixo, em que trato da atualidade do Manifesto Comunista. 

 

Leandro do Erre, mestrando em Sociologia e Ciência Política na PUCRS e responsável pelo canal no YouTube “A questão política”. Redes Sociais: X: @leandrodoerre Facebook: Leandro do Erre

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